Venus Fluid: obra orquestral e barroca de Ines Valentinitsch e Veronica Vetrila que capta Veneza como arquétipo

Venus Fluid: performance de Ines Valentinitsch e Veronica Vetrila em Veneza que reimagina a cidade como arquétipo entre fluxo e stase.

Venus Fluid: obra orquestral e barroca de Ines Valentinitsch e Veronica Vetrila que capta Veneza como arquétipo

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Venus Fluid: obra orquestral e barroca de Ines Valentinitsch e Veronica Vetrila que capta Veneza como arquétipo

Durante a anteprima da Biennale em Veneza, fui tomada por uma experiência que se comportou como um espelho líquido do próprio lugar: Venus Fluid, performance concebida por Ines Valentinitsch e Veronica Vetrila, apresentada sobre o Canal Grande por ocasião da inauguração da exposição de Valentinitsch em Palazzo Mora. O trabalho me pareceu uma partitura viva — ora barroca, ora orquestral — que reconduz Veneza ao papel de arquétipo: cidade-límite, cidade-museu e cidade-mito.

Veronica Vetrila é uma artista multidisciplinar de origem moldava que vive na Itália desde 2009. Sua prática transita entre performance, dança, design de figurinos e moda; encontrou na dança Butoh a iniciação corpórea que se ampliou por meio da dança contemporânea, teatro-dança, práticas somáticas, Flying Low e improvisação. Essa trajetória fez de suas ações públicas um território de investigação sobre identidade, vulnerabilidade, transformação e a relação entre corpo e limite. As performances autorais de Vetrila circulam festivais internacionais — Paris, Belgrado e Berlim — com títulos como “En Chair Et en Son” (2025) e “It's Gonna Be Hot” (2023–2024). Em parceria com Valentinitsch, apresentou projetos como “Be You To the Full” e “Fluid Venus”, onde live painting e ação poético-performativa se entrelaçam.

Ines Valentinitsch, pintora, performer, escultora, ilustradora e designer austríaca, formou-se sob a influência direta de figuras como Günter Brus e concluiu com louvor a Universität für angewandte Kunst Wien (Masterclass de Helmut Lang), além de um master na Domus Academy. Seu trabalho perscruta a percepção do corpo e a sensualidade, provocando as convenções sociais. Em suas instalações, a pintura sensível e intensa convive com a live art, fazendo da vulnerabilidade uma matriz de força. Valentinitsch já expôs em feiras como Big Torino, miart e VOLTA, assim como em cidades europeias — Munique, Milão, Kitzbühel, St. Moritz, Graz, Pavia e Viena.

No espetáculo que vi à beira d’água, o duo promoveu uma coreografia de imagens e gestos em que graça e carnalidade se orquestram como numa cena barroca repensada: linhas pictóricas que se movem, figurinos que emergem como esculturas móveis, e ações performativas que se dobram sobre si mesmas até compor uma espécie de pausa aiónica — uma duração que parece fora do tempo histórico, mas habitada por ressonâncias musicais imediatas. A estética remeteu-me, de maneira sofisticada, a uma gramática tiepolesca-berniniana: movimento e fissura, luz e sombra, teatralidade que não anula a intimidade do corpo.

Houve também, na presença performativa, uma lembrança inescapável do que chamo de mito-poética totalizadora: a operação de unir disciplinas — escultura, pintura, coreografia e semiótica espacial — num único acontecimento sensível, uma unidade orgânica que desvela polaridades e as faz dialogar. Pensei em Carmelo Bene não por nostalgia, mas pela maneira como sua experiência artística operava uma totalidade transdisciplinar: Venus Fluid replicou essa tensão entre fragmento e unidade, transformando o espaço público veneto numa tela viva.

Do ponto de vista temático, o trabalho coloca Veneza como arquétipo da transição: cidade que é espelho do nosso tempo, palco de um reframe cultural onde a memória coletiva se confunde com a mercadoria do espetáculo. A obra de Valentinitsch e Vetrila não se contenta em reproduzir imagens prettamente estéticas; ela interroga a origem do olhar, a condição do corpo em fluxo e o limiar reversível entre presença e representação.

Em termos sensoriais, a performance atuou como uma orquestração de microtempos: gestos mínimos tornados sinfonia, respirações que criam paisagens sonoras, tinta que se faz pele. Essa conjunção entre instantâneo e permanência — entre fluxo e stase — é o que torna Venus Fluid um trabalho emblemático para entender como a arte contemporânea pode reencenar a história de uma cidade sem reduzi-la a um clichê turístico.

Saí daquela margem com a sensação de ter assistido a um filme silencioso cuja trilha sonora era o próprio movimento: um curta em que a cidade devolve à figura humana suas redundâncias e potências. Essa é a grande aposta do duo: transformar o cenário veneciano num laboratório onde a imagem e o corpo se reescrevem mutuamente, convidando-nos a ver Veneza não apenas como destino, mas como arquétipo em trabalho — um roteiro oculto da sociedade que se revela entre um gesto e outro.