Descalzi (Eni): “A Europa precisa do gás russo; bloqueio do Estreito de Hormuz é evento decisivo”
Descalzi (Eni) defende revisão do banimento ao gás russo e alerta que bloqueio do Estreito de Hormuz é o maior choque geopolítico em 40 anos.
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Descalzi (Eni): “A Europa precisa do gás russo; bloqueio do Estreito de Hormuz é evento decisivo”
Claudio Descalzi, CEO da Eni, fez declarações contundentes durante uma intervenção na Escola de Formação Política da Lega, em Roma, afirmando que a Europa precisa reconhecer a centralidade do gás russo para sua segurança energética. Na avaliação do executivo, o bloqueio do Estreito de Hormuz configura "o evento mais importante dos últimos 40 anos" e impõe uma revisão pragmática das escolhas políticas tomadas até aqui.
Descalzi afirmou que "a trégua nunca existiu" e exigiu que Bruxelas adote uma postura mais realista: "Não podemos ficar sempre correndo atrás das crises". Para o CEO, a questão urgente não são apenas os preços, mas os volumes necessários para manter a malha logística e industrial europeia funcionando — sobretudo para o abastecimento de jet fuel, combustível crítico cuja oferta está fragilizada.
O executivo lembrou que a União Europeia aprovou, em 26 de janeiro, o banimento total das importações de gás russo, com medidas que incluem o corte progressivo de aproximadamente 20 bilhões de metros cúbicos até 1º de janeiro de 2027. "Penso que é necessário suspender o bando que entrará em vigor em 2027 sobre esses 20 bilhões de metros cúbicos que vêm da Rússia", disse Descalzi, propondo uma reavaliação da decisão à luz das variáveis geopolíticas recentes.
Dados citados pelo CEO reforçam a complexidade do quadro: os fluxos de gás russo para a Europa caíram de cerca de 60% em 2019 para 8% atualmente, embora as importações de GNL tenham apresentado ligeiro aumento. Ao mesmo tempo, a economia russa mostrou resiliência em 2024, com um PIB 4,3% impulsionado pelo setor manufatureiro (+8%), aumento salarial de +9% e inflação acima de 9,5%.
Descalzi destacou ainda a fragilidade estrutural do parque refinador europeu: "A Europa consome cerca de 60 milhões de toneladas de jet fuel, das quais importa 35%. Nos últimos 18 anos foram fechadas 36 refinarias", recordou. A consequência é uma dependência crescente de volumes e rotas externas que podem ser afetadas por choques no Golfo, cuja tensão atual empurra o preço físico do petróleo em destinos asiáticos para níveis de aproximadamente 150 dólares por barril, contra cotações "paper" mais baixas no Atlântico (cerca de 110 dólares).
Na minha leitura, como economista e estrategista, a mensagem de Descalzi é um chamado à "calibragem de políticas": o gás russo funciona hoje como o motor da economia em muitos setores, oferecendo flexibilidade operacional que nem as renováveis e nem o nuclear — inexistente em larga escala na Europa — conseguem suprir no curto prazo. É preciso, portanto, ajustar os freios e acelerar onde houver capacidade, sem negar a necessidade de gestão de risco político e reputacional.
Sejamos claros: rever políticas não equivale a abdicar de princípios, mas a conduzir uma estratégia de segurança energética com engenharia de ponta — pensar em termos de volumes, cadeias logísticas e redundância de oferta. A União Europeia deve unir realismo macroeconômico e visão estratégica: trata-se de manter o motor da economia doméstica calibrado enquanto se desenham alternativas de longo prazo.
Em síntese, a intervenção de Descalzi é um convite à ação ponderada. A gestão da crise no Estreito de Hormuz exige respostas que combinem diplomacia, planejamento industrial e uma rápida aceleração das infraestruturas de abastecimento. O desafio é técnico e político: quem quiser dirigir a economia europeia hoje precisa manejar com precisão a caixa de câmbio das decisões energéticas.