Ilva à deriva: governo perde prazo e prepara nova gara enquanto venda segue incerta
Venda da Ilva empaca: Urso perde prazo, novas licitações e incertezas elevam custos públicos e pressão sobre trabalhadores.
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Ilva à deriva: governo perde prazo e prepara nova gara enquanto venda segue incerta
Por Stella Ferrari — Economista sênior da Espresso Italia
A venda da Ilva voltou a acelerar na direção errada: o Governo, sob a liderança do ministro Adolfo Urso, não cumpriu a última data-limite para a transferência dos ativos e agora avalia a hipótese de reiniciar todo o processo. A corrida que prometia ser uma aceleração suave rumo à privatização transformou-se em um circuito cheio de curvas fechadas.
Até aqui, as propostas do Flacks Group e da família Jindal estão em suspenso. O primeiro, um fundo americano, não demonstrou garantias financeiras sólidas nem experiência industrial no aço; o segundo já foi recusado no passado e voltou à cena com exigências complexas sobre incentivos e sobre a Autorização Integrada Ambiental (AIA). A tensão entre estabilidade econômica, condicionantes ambientais e capacidade operacional tem mantido as ofertas em impasse.
Segundo informações de mercado, o Ministério das Empresas e do Made in Italy (MIMIT) estuda partir para uma nova gara — uma nova licitação — e tentar envolver outros players do setor siderúrgico, com nomes como Arvedi e Qatar Steel surgindo entre os possíveis interessados. Mas a única certeza, por ora, é a perda da scadenza definida para o final de abril: a atribuição dos siti não ocorrerá em prazos curtos.
As consequências são óbvias para o motor da economia industrial local: aumento de custos para os cofres públicos e prolongamento das incertezas para os trabalhadores. Atualmente, os empregados recebem medidas de proteção salarial até março de 2027, porém não há garantias sobre a manutenção da integração salarial ao nível de 70% a partir de outubro. Esse vácuo de previsibilidade pressiona tanto a gestão das plantas quanto o tecido social em volta delas.
Recordemos o histórico: após a administração extraordinária das Acciaierie d’Italia, Urso assegurou que a venda ocorreria até o fim de 2024. Depois do fracasso com a proposta vinda do Azerbaijão (Baku Steel), o surgimento do Flacks Group trouxe mais ruído do que soluções. A tentativa de ressuscitar a candidatura Jindal trombou com a exigência de uma AIA menos restritiva — algo que, segundo técnicos, deverá ser ajustado em sentido mais rigoroso até o final de agosto para evitar o fechamento da área a quente.
O retorno de Arvedi como possível “cavaliere bianco” coincide com a autorização governamental de benefícios de até 22,5 milhões de euros para um projeto de 82,5 milhões no polo de Cremona, sinalizando que o vínculo entre política industrial e incentivos continua forte. Caso o Executivo opte por reiniciar a licitação, será inevitável uma nova injeção de recursos públicos para manter a operação e preservar os ativos — enquanto o alto-forno 4 segue com partida adiada.
Quanto mais se posterga a solução, maior a probabilidade de medidas draconianas sobre custos e perímetros. Em termos de estratégia, o processo precisa de calibragem: combinar sustentabilidade ambiental, capacidade industrial e compromisso financeiro dos compradores. Sem isso, a privatização corre o risco de se transformar em um vácuo de responsabilidades, onde os freios fiscais e a falta de credibilidade empurram para um novo ciclo de intervenção pública.
Em síntese, a operação Ilva exige uma gestão de alta performance — como um projeto de engenharia onde cada peça deve encaixar com precisão de fábrica. Hoje, falta essa precisão: o Governo reconsidera a partida, e o mercado observa, com motores ligados, à espera de uma pista livre.