Morre aos 87 anos Ted Turner, criador da CNN que inventou a televisão 24 horas
Morreu Ted Turner, fundador da CNN aos 87 anos. Veja a trajetória do pioneiro da televisão 24 horas e o impacto cultural de sua obra.
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Morre aos 87 anos Ted Turner, criador da CNN que inventou a televisão 24 horas
Ted Turner, o empresário que revolucionou a imprensa televisiva ao fundar a CNN, morreu aos 87 anos, anunciou a própria emissora. Nascido em Cincinnati, Ohio, em 19 de novembro de 1938, Turner foi uma figura complexa: empresário, filantropo, esportista e ativista ambiental. Casou-se três vezes — a mais famosa, em 1991, com a atriz e ativista Jane Fonda — e teve cinco filhos, frutos dos dois casamentos anteriores.
A trajetória de Turner nos meios começou cedo, aos 24 anos, quando assumiu o negócio de outdoors do pai, a Turner Outdoor Advertising. Em seguida, ampliou-se no rádio e, a partir de 1970, deu o salto para a televisão ao comprar uma estação em dificuldades em Atlanta, conhecida como Channel 17. Para conquistar público, Turner apostou em reprises de sitcoms e filmes clássicos e chegou até a apresentar programas pessoalmente — um gesto que já anunciava sua visão pouco ortodoxa da mídia.
Incomodado com o que considerava uma cobertura superficial dos grandes canais, Turner nutriu a convicção de que os americanos eram mal informados. Dessa inquietação nasceu uma ideia que muitos consideravam radical: um canal dedicado exclusivamente às notícias. Em 1º de junho de 1980, nascia a Cable News Network (CNN), o primeiro exemplo moderno de televisão all-news.
O ponto de virada veio durante a Guerra do Golfo, em 1991. Enquanto a maior parte da imprensa fugia de Bagdá diante da iminência dos ataques, a CNN permaneceu no local e transmitiu imagens poderosas das ofensivas — projéteis traçadores cortando o céu e correspondentes abalados pelas ondas de choque. A cobertura ao vivo transformou a rede num espelho do nosso tempo e rendeu a Turner a capa de “Homem do Ano” da revista Time.
Apesar do sucesso, a relação de Turner com seu legado empresarial foi conflituosa. Após vender a rede para a Time Warner em 1996, foi prometido a ele um papel contínuo, mas gradualmente foi se afastando das decisões, algo que ele próprio lamentou: “Cometi um erro — o erro foi perder o controle da empresa.”
No panorama atual, a CNN figura entre os três grandes canais de notícias a cabo nos Estados Unidos, ao lado da Fox News, ligada ao magnata Rupert Murdoch e simpática a setores conservadores, e da MSNBC, de tendência progressista. A emissora pertence hoje à Warner Bros. Discovery, num momento em que seu futuro editorial é cercado por especulações sobre mudanças de propriedade — inclusive uma proposta de aquisição ligada à Paramount Skydance, do empresário David Ellison.
Nas redes, a morte de Turner foi comentada por figuras públicas. Em um post no Truth, o ex-presidente Donald Trump evocou a trajetória do fundador da CNN, lembrando que Turner teria ficado “pessoalmente devastado” após a venda e acusando a nova gestão de ter transformado a emissora em algo que ele não reconheceria.
Mais do que a biografia de um magnata, a história de Ted Turner é o roteiro de uma transformação cultural: a invenção da televisão all-news reconfigurou a forma como percebemos o presente e acelerou a semiótica do imediato. Como analista cultural, vejo em sua trajetória o eco de um tempo em que o controle da narrativa pública transitou da sala de redação para um tabuleiro corporativo — e onde a promessa de informar ininterruptamente virou, ao mesmo tempo, espelho e palco do nosso tempo.
Turner deixa um legado contraditório e inapagável: a ideia de que a notícia em tempo real poderia moldar a história — e que, por isso, quem detém as câmeras muitas vezes reescreve o roteiro oculto da sociedade.