Ator palestino Motaz Malhees impedido de comparecer ao Oscar: “Você pode bloquear um passaporte, mas não uma voz”
Motaz Malhees, ator palestino de 'La voce di Hind Rajab', é impedido de entrar nos EUA e não poderá comparecer ao Oscar; "você pode bloquear um passaporte, mas não uma voz".
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Ator palestino Motaz Malhees impedido de comparecer ao Oscar: “Você pode bloquear um passaporte, mas não uma voz”
Por Chiara Lombardi — A poucos dias da cerimônia do Oscar, a representante cinematográfica que emergiu como um verdadeiro espelho do nosso tempo sofre uma ausência emblemática. O ator palestino Motaz Malhees, um dos protagonistas de La voce di Hind Rajab (concorre ao prêmio de Melhor Filme Internacional), anunciou que não poderá viajar para os Estados Unidos: "Não me é permitido entrar nos EUA porque sou cidadão palestino. Você pode bloquear um passaporte, mas não uma voz", escreveu em um post no Instagram. A declaração ressoa como um refrão que ultrapassa a tela e devolve ao público a pergunta sobre quem tem permissão para representar histórias no palco global.
O filme da diretora tunisina Kaouther Ben Hania ganhou o Leão de Prata na 82ª Mostra de Cinema de Veneza, onde a projeção foi recebida com mais de vinte minutos de aplausos. Essa recepção não foi apenas homenagem à técnica cinematográfica, mas ao poder da documentação sensorial: o filme reconstrói, com a gravação real de um telefonema de socorro, o episódio de 29 de janeiro de 2024 em que voluntários da Mezzaluna Rossa (Crescente Vermelho) tentam socorrer uma criança presa em um carro sob ataque em Gaza.
A menina, Hind Rajab, de seis anos, implora: "Tenho medo, venham me buscar" — a voz que atravessa o filme é também a linha a partir da qual se desenrola o debate ético e estético. Ao transformar a gravação em material cinematográfico, Ben Hania propõe um reframe da realidade: o cinema como arquivo e como testemunho. A ausência física de Malhees na cerimônia, portanto, contrasta com a presença sonora e simbólica do longa na narrativa pública.
Motaz Malhees, em sua mensagem, afirma que permanecerá presente "com espírito, orgulho e dignidade". Sua frase — "Você pode bloquear um passaporte, mas não uma voz" — opera como uma metáfora poderosa: enquanto barreiras físicas e burocráticas tentam controlar deslocamentos, as narrativas, as memórias e as vozes gravadas persistem. É uma lembrança de que o cinema pode funcionar como uma semiótica do viral, um mecanismo que amplifica fragmentos humanos para além de fronteiras territoriais.
O caso abre uma lente mais ampla sobre quem é autorizado a viajar e sentir-se representado nas cerimônias que definem o cânone cultural contemporâneo. Em termos práticos, La voce di Hind Rajab mantém sua nomeação ao Oscar, e a equipe do filme segue sendo reconhecida pela crítica internacional. Mas a história pessoal de Malhees — e a impossibilidade de sua presença — transformam a premiação em um palco onde se espelham tensões geopolíticas e escolhas institucionais.
Como analista, insisto em não reduzir o acontecimento a um incidente de protocolos: há aqui um roteiro oculto da sociedade, onde o protagonismo artístico choca-se com limites administrativos. A ausência de Malhees na cerimônia é ao mesmo tempo uma lacuna física e um sinal de que a arte continua a fazer o seu trabalho essencial — tornar visíveis vozes que sistemas querem silenciar. O público que assistiu a Veneza já entendeu a potência dessa voz; agora cabe à plateia global dos Oscar escutar, mesmo que à distância.
Em última instância, o episódio ilumina o poder do cinema documental e a responsabilidade de festivais e premiações em articular representatividade e acesso. A história de Hind Rajab — e a trajetória artística de quem a encena — permanecem parte de um cenário de transformação que resiste a fronteiras. Motaz Malhees não estará presente em pessoa, mas a sua voz e a da pequena Hind ecoarão no debate público muito além da noite do Oscar.


