Rupert Everett, liberdade e memória: o coming out, o Coliseu à noite e Caifás em Il Vangelo di Giuda
Rupert Everett comenta seu coming out, memórias em Roma e o papel de Caifás em Il Vangelo di Giuda. Reflexões sobre liberdade e memória.
RESUMO ✦
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Rupert Everett, liberdade e memória: o coming out, o Coliseu à noite e Caifás em Il Vangelo di Giuda
Por Chiara Lombardi — Em um encontro que mistura memória pessoal e interpretação histórica, Rupert Everett fala sobre seu papel como Caifás no filme Il Vangelo di Giuda, dirigido por Giulio Base, e entrega lembranças que funcionam como um espelho do nosso tempo. Produzido por Agnus Dei com Minerva e em colaboração com Rai Cinema, o longa estreia em 2 de abril. No filme, Judas aparece encapuzado, sempre de costas; não há diálogos entre os personagens, apenas a voz narrante de Giancarlo Giannini que devolve ao protagonista seus pensamentos — um traidor que se declara, paradoxalmente, vítima.
Ao ler o roteiro, Everett conta que reconheceu uma escrita inventiva e um olhar original sobre o episódio: “A famosa frase de Jesus — 'faça o que deve ser feito e faça logo' — eu também a pronuncio no filme”, diz. Essa inversão de perspectivas, o reframe da narrativa, transforma o relato evangélico em um puzzle onde figuras históricas são desautomatizadas: “Pôncio Pilatos não se lavou as mãos, era um homem horrível, e Caifás não é exatamente um santo, parece até um vilão de vaudeville”.
Como observadora do zeitgeist que sou, vejo aqui não só uma reconstrução bíblica, mas um exercício de semiótica do viral: a imagem de Judas como traidor foi construída ao longo dos séculos e, neste filme, é desconstruída para nos perguntar por que insistimos em narrativas tão fixas.
Sobre o silêncio dramático do longa, Everett confessa seu apreço pelos filmes mudos: “Adoro quando a direção confia na imagem e no gesto, sem depender apenas do diálogo”. Este estilo, que privilegia o que fica implícito, é também uma metáfora para sua vida pessoal. Perguntado sobre infidelidade, Rupert admite: “Todos traem e são traídos. Eu traí muita gente. Na juventude, depois de 1968, associei autonomia ao romantismo e ao sexo; fui muito infiel”.
Firme e provocadora, sua memória sobre Roma mistura reverência histórica e provocação íntima: “A liberdade que vivenciei em Londres nos anos 70 eu também vivi em Roma — fiz amor em parques, no Campidoglio e até no Coliseu, que encontrei aberto à noite. Naqueles momentos eu me sentia como um antigo romano”. A imagem é quase cinematográfica: Roma noturna como cenário de transformação, palco onde o corpo reescreve tradições.
Sobre seu coming out, Everett é lacônico e franco: declarou-se em uma época em que não lhe convinha. “Sobrevivi bem: ganhei mais do que perdi. Se eu tivesse casado com minha amiga Michela em Roma, as coisas teriam sido diferentes”. Seus pais, de outra geração, reagiram mal no início, mas o tempo os tornou mais cúmplices.
As memórias de Everett não economizam glamour: recorda-se de uma festa na casa de Valentino, com trapezistas e luzes que o faziam sentir-se “num circo com gladiadores” — uma imagem que atua como metáfora do fim de uma era. E há ainda outra ligação com a Paixão: ele interpreta Abraão em Resurrezione, segundo filme de Mel Gibson sobre o tema, onde destaca a grandeza do cineasta e o respeito com os atores.
Este depoimento de Rupert Everett é mais do que uma entrevista promocional: é um roteiro oculto da própria modernidade, onde fé, corpo e liberdade se encontram nos cenários clássicos de Roma e no interior dos símbolos que continuam a narrar quem somos.