SogliaS: na Galleria Latina, exposição coletiva transforma o visitante em limiar entre obra e mundo

Soglie na Galleria Latina: exposição coletiva que transforma o visitante em limiar entre obra e mundo. Arte, política e percepção até 15 de junho.

SogliaS: na Galleria Latina, exposição coletiva transforma o visitante em limiar entre obra e mundo

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SogliaS: na Galleria Latina, exposição coletiva transforma o visitante em limiar entre obra e mundo

Soglie — ou, em português, limiares — chega à Galleria Latina como um convite a atravessar o ponto onde ver deixa de ser obrigatório e passa a ser habitado. Após a reabertura do espaço e a personalíssima de Omar Hassan, a galeria, dirigida por Chiara Pazzanese e Arianna De Silvio, inaugurou em meados de maio uma mostra coletiva que permanece em cartaz até 15 de junho. A exposição não se limita a apresentar obras: propõe situações perceptivas que reconfiguram a relação entre público e obra.

Concebida como um verdadeiro laboratório criativo, a curadoria estimulou a produção de trabalhos inéditos pensados especificamente para o percurso. O resultado é uma narrativa distribuída pelos dois andares da galeria, onde pintura, escultura, video-instalação e mixed media dialogam como episódios de um roteiro que explora o nosso tempo.

No térreo, o visitante é recebido por uma peça que funciona como portal: a obra-soglia em aço de Michele Ciribifera, atuando como uma segunda entrada que altera a percepção do espaço. A partir daí, o percurso declina elementos naturais e processos transformativos: os ologramas aquáticos de Michelangelo Bastianini criam uma presença líquida e fugidia; Tuono, de Alessandro D’Aquila (em colaboração com Pepe Maniak), ecoa como um evento atmosférico que tensiona o ar da galeria; as combustões poeticamente documentadas por Valeria Vaccaro e as referências à terra em "Radici", de Nicolas Denino, ancoram o visitante em ciclos elementares.

A sala adjacente, visível da vitrine, reúne uma série de investimentos sobre transparência e refração: a instalação site-specific de Daniele Sigalote e as tecas assinadas por Omar Hassan brincam com luz e superfície, enquanto trabalhos de Barbara Nejrotti e Marco Rea tensionam o espaço entre visão e presença material.

No piso superior, o foco desloca-se para a figura humana e suas hibridações. O diálogo entre analógico e digital de Niccolò Tomaini, a investigação sobre corporeidade de Sofia Bianchini e as figuras de Simona Gasperini — traços instáveis entre aparecimento e dissolução — compõem um mapa de identidades em mutação. As camadas cromáticas e o mergulho introspectivo ao centro matérico de Domitilla Verga contrastam com as esculturas sustentáveis de Davide Dall’Osso, que requalificam resíduos como presença escultural.

Além do campo estético, a exposição introduz também leituras políticas. Contribuições de Filippo Riniolo, Elena Fabrisi e Enrico Dicò acrescentam vozes que interrogam o presente: a instalação sonora "Mare", de Riniolo, dá voz ao drama das migrações a partir de uma perspectiva feminina, lembrando que o espaço expositivo pode ser também um lugar de memória coletiva e empatia.

Galleria Latina confirma-se, assim, mais que um palco expositivo: um dispositivo que propõe o visitante como sujeito ativo, transformando a contemplação em passagem. Em tempos em que as imagens circulam em excesso, Soglie atua como espelho do nosso tempo, um reframe da realidade que nos pede não só para olhar, mas para reconhecer o fio que nos liga às obras — e entre nós.

Para os que buscam entender o porquê por trás do fenômeno — por que nos comovemos, por que nos inquietamos — a mostra funciona como um roteiro oculto, revelando a semiótica do viral em escala íntima: obras que não só aparecem, mas exigem travessia.

Informações práticas: Soglie / Thresholds fica em cartaz na Galleria Latina até 15 de junho, com entrada conforme horários da casa. A experiência, mais do que exposição, é um convite a reconhecer o limiar entre olhar e ser olhado.