Tenente Colombo e os 'intocáveis' de hoje: o espelho do poder que persiste

Como o Tenente Colombo expõe os 'intocáveis' e reflete sobre poder, impunidade e identidade cultural na era contemporânea.

Tenente Colombo e os 'intocáveis' de hoje: o espelho do poder que persiste

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Tenente Colombo e os 'intocáveis' de hoje: o espelho do poder que persiste

Depois de uma partida acalorada de futebol — eu, nostálgica, ainda torço pelo Toro — nada melhor do que afundar no sofá e assistir a um antigo episódio de Colombo (disponível em Top Crime e Prime). Há algo reconfortante e ao mesmo tempo inquietante em ver aquele detetive de impermeável amarrotado desmantelar, com jeito humilde e cerebral, os esquemas dos que se julgam fora do alcance da lei.

Peter Falk (1927-2011) emprestou ao personagem uma mistura perfeita de casualidade e perspicácia: o Tenente Colombo é um investigador da Divisão de Homicídios de Los Angeles, com claras origens italianas, embora goste de brincar que seu nome é simplesmente “Tenente”. A estrutura dos episódios é quase ritualística: a audiência presencia, no início, um crime aparentemente perfeito — e sabe quem é o autor. O prazer não está no mistério de quem, mas no modo como Colombo, com suas perguntas incômodas, vai enfraquecendo a vida construída pelo culpado até forçá-lo ao erro.

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Claudio Giunta, em seu ensaio sobre Colombo (presente em Il pop e la felicità, Mondadori), observa que o tenente raramente persegue bandidos de profissão. Seus alvos são figuras do jet set de Los Angeles: “gente simpática, culta, respeitável até o momento do crime”. Vestidos sob medida, moradores de vilas modernistas, aficionados por vinhos caros — opõem-se ao detetive de Peugeot surrada, impermeável desbotado e refeições simples. É, como disse Umberto Eco, o duelo entre o pigmeu e o gigante de pés de argila: o público se satisfaz por ver alguém modesto punir o ostentoso.

Essa dinâmica funciona como um reframe do nosso imaginário: o roteiro oculto da sociedade mostra que a moralidade não mora nas vitrines do sucesso. Mas a pergunta que fica, como uma cena que ecoa após os créditos, é se ainda queremos, hoje, nos reconhecer em figuras modestas como Colombo. Os antagonistas clássicos — os malfeitores arrogantes e aparentemente intocáveis — nos parecem tão culpáveis diante do contexto contemporâneo?

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Vivemos uma era em que os inimigos públicos assumem outra forma. Não são mais apenas os poderosos com crimes bem camuflados por etiqueta social; são indivíduos que, por riqueza, influência ou posição, acreditam estar acima da lei. E essa sensação de impunidade remete, sem esforço, a figuras políticas e midiáticas recentes — pense-se no estilo e na retórica de Donald Trump — que consolidam uma espécie de intocabilidade formal e simbólica.

Ver Colombo hoje é, portanto, mais que nostalgia: é um espelho do nosso tempo. A série nos lembra que o combate à impunidade não é apenas policial, mas também simbólico e cultural. O detetive de impermeável representa um desejo coletivo de ver a justiça aplicada mesmo quando os acusados se escondem atrás da cortina do prestígio. Ao mesmo tempo, suscita inquietações: em que medida nossa fé em figuras modestas permanece viva quando o poder redefine regras à própria imagem?

Assistir a um episódio é, assim, praticar uma pequena arqueologia moral — reconhecer os artefatos do status, desarmar a performance do respeito e, no final, testemunhar a queda do personagem que se julgava intocável. É essa combinação de entretenimento e vigilância cultural que mantém Colombo relevante: não apenas uma série de televisão, mas um estudo sobre como nós, como sociedade, escolhemos identificar e punir os que se creem acima do bem e do mal.

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