Veneza abre com silêncio de bandeiras: que falem os filmes sobre a Palestina
Veneza abre sem bandeiras: Barbera responde ao apelo proPal programando quatro filmes sobre a Palestina. Que falem as obras, não os slogans.
RESUMO ✦
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Veneza abre com silêncio de bandeiras: que falem os filmes sobre a Palestina
Esta noite a Mostra de Cinema de Veneza inaugura sua temporada e, em vez de estandartes e pronunciamentos, o diretor Alberto Barbera optou por uma resposta que reflete a tradição crítica do festival: deixar que as obras falem por si. Ao responder ao apelo proPal — que pedia ao festival um posicionamento explícito — Barbera decidiu pela estratégia mais pertinente do ponto de vista cinematográfico: programar quatro filmes que abordam a questão palestina.
Em tempos nos quais as imagens virais e os slogans saturam a esfera pública, a escolha de apresentar um conjunto de títulos sobre a Palestina funciona como um espelho do nosso tempo. Não é apenas um gesto de solidariedade, mas uma decisão editorial que transforma a programação em um espaço de memória, debate e representação. O festival não hasteia bandeiras; ele seleciona narrativas. E, como toda curadoria, essa seleção carrega um peso político — um roteiro oculto da sociedade escrito através de filmes.
A iniciativa também evita a performance simbólica que muitas vezes anuncia engajamento sem produzir compreensão. Ao colocar quatro filmes sobre o mesmo tema no calendário, a Mostra promove uma continuidade discursiva: espectadores podem atravessar diferentes perspectivas, estilos e procedimentos narrativos sobre a mesma questão, construindo uma visão mais complexa do que permitiria um manifesto instantâneo.
É importante notar que a política de um festival reside em sua programação. Festivais europeus historicamente funcionam como plataformas que reframeiam a realidade, dando espaço a vozes marginalizadas e reconstituindo contextos esquecidos. A decisão de Barbera dialoga com essa tradição e com a responsabilidade cultural de um evento que, no Lido, se torna eco cultural e espaço de encontro entre público e produção crítica.
Haverá críticas previsíveis: há quem veja todo gesto cultural como insuficiente diante da urgência política. Outros cobrarão neutralidade absoluta. Mas a curadoria que privilegia o olhar prolongado e a multiplicidade de narrativas oferece uma alternativa produtiva. Filmes não prometem soluções imediatas, mas abrem tramas, explicam genealogias de conflitos e humanizam sujeitos reduzidos a manchetes.
Na imagem que circula das primeiras horas do festival, Greta Scarano e Alberto Barbera aparecem no Lido (Ansa), um registro que encena o encontro entre atuação e instituição. Essa foto resume a ambivalência dos festivais: ao mesmo tempo que celebram o espetáculo, são lugares de questionamento. Nesta edição, o gesto de programar quatro filmes sobre a Palestina é, em termos de curadoria, um convite ao diálogo prolongado — algo raro na pressa das timelines.
Como observadora cultural, lembro que o entretenimento nunca é apenas diversão. A Mostra, ao privilegiar a narrativa cinematográfica, oferece um mapa interpretativo para um tema que exige contexto histórico, empatia e imaginação política. Que venham os filmes — e que, ao sairmos das salas, levemos conosco o que eles revelam sobre o nosso tempo.

