Da era Dibiasi à era Pellacani: a Itália reina nos saltos ornamentais dos Europeus 2026
De Dibiasi a Pellacani: como a Itália reafirmou sua hegemonia nos saltos ornamentais nos Europeus de Paris 2026.
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Da era Dibiasi à era Pellacani: a Itália reina nos saltos ornamentais dos Europeus 2026
Por Otávio Marchesini, Espresso Italia — Há uma continuidade simbólica e técnica que atravessa seis décadas dos saltos ornamentais italianos: a trajetória que vai de Klaus Dibiasi e Giorgio Cagnotto até Chiara Pellacani e Elisa Pizzini não é apenas uma sucessão de nomes, é a cristalização de uma cultura desportiva que podemos chamar, sem ironia, de Tuffilandia.
Nos Europeus de Paris, a Itália comandada pelo diretor técnico Oscar Bertone — antigo discípulo de Cagnotto nos anos 80 — voltou a traduzir em resultados essa longevidade: 7 pódios no quadro final, com cinco ouros, uma prata e um bronze. Resultado que valeu o topo do medalheiro continental, à frente da Alemanha, segunda em números totais (10 medalhas) mas com dois ouros a menos, e da equipe russa neutra, terceira, que contabilizou seis pódios incluindo dois títulos assinados por Ruslan Ternovoi da plataforma.
No centro desse ciclo está Chiara Pellacani, 23 anos, romana por nascimento e cidadão do mundo por escolha, que vive, estuda e treina em Miami. Em menos de uma semana Pellacani conquistou cinco ouros: o team event, o sincro misto do trampolim, o trampolino de 1 metro e o de 3 metros — além de outro título que compõe sua coleção na competição. O apelido que lhe tem sido dado, de "cinese d'Europa", aponta menos para uma imitação e mais para a precisão técnica e a repetibilidade do gesto sob pressão — qualidades que escavam uma afinidade inédita com as dominadoras asiáticas.
O ouro derradeiro, de tom histórico, chegou no sincronizado do trampolino de 3 metros, ao lado de Elisa Pizzini, 21 anos, natural de Verona e já romana por adoção. A dupla, depois de um começo transitório nos primeiros dois saltos obrigatórios, acelerou a partir da terceira rodada, produzindo séries acima de 70 pontos e entregando um conjunto decidido: o duplo salto mortal e meio frente com um avvitamento; o triplo salto mortal e meio frente carpiato; e, para fechar, o duplo mortal e meio de retorno carpiato. O placar final, 308.07 contra 278.40, deixou em segundo lugar as ucranianas Kseniia Bochek e Diana Karnafel.
Esse título soma-se a um legado: é o décimo campeonato europeu italiano no trampolino de 3 metros feminino, prova que só entrou no programa nos anos finais dos anos 1990, portanto fora do repertório das duplas clássicas como a de Dibiasi-Cagnotto. Ainda assim, nomes como Tania Cagnotto e Francesca Dallapè mantêm o recorde de longevidade e êxito no sincro a três metros — outro capítulo dessa história coletiva.
Mais do que números, o que impressiona é a síntese institucional e cultural: formação técnica doméstica, circulação de saber — atletas que buscam centros de alta performance no exterior — e uma direção técnica capaz de ler tempos e modos do esporte. A vitória em Paris não é apenas um triunfo de atletas individuais, mas a confirmação de um sistema que aprendeu a se reinventar sem perder sua identidade. É essa tensão entre memória e atualização que torna a história dos saltos italianos particularmente reveladora do esporte como fenômeno social.