Infantino provoca a Itália e defende Mundial com 64 seleções: expansão, poder e representatividade na FIFA

Infantino defende Mundial com 64 seleções e provoca a Itália; ampliação revela jogo de poder na FIFA e impacto esportivo e político.

Infantino provoca a Itália e defende Mundial com 64 seleções: expansão, poder e representatividade na FIFA

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Infantino provoca a Itália e defende Mundial com 64 seleções: expansão, poder e representatividade na FIFA

Por Otávio Marchesini — A discussão sobre a expansão da Copa do Mundo deixou de ser apenas técnica e entrou no terreno da geopolítica esportiva. Gianni Infantino, presidente da FIFA, consolidou boa parte de seu poder apoiado justamente na mudança estrutural que iniciou com o Mundial de 48 seleções. Agora, ao considerar avançar para um torneio com 64 seleções, ele não fala apenas de futebol: fala de poder, clientelismo e construção de consenso entre as federações menores.

Em entrevista concedida à emissora brasileira CazéTV, o dirigente voltou a defender a ampliação. "Antes de tudo, devemos ver como funcionará este primeiro Mundial com 48 seleções", disse Infantino, lembrando que a experiência atual foi um instrumento político e econômico eficaz. Segundo ele, a hipótese de 64 equipes mantém praticamente o mesmo total de partidas, mas amplia a participação e o envolvimento global — uma narrativa que casa perfeitamente com seu projeto de aumentar a base de apoio dentro do Congresso da FIFA.

O plano que circula junta fatores simbólicos e logísticos: a edição de 2030 será o centenário da primeira Copa do Mundo realizada no Uruguai, e a organização ficará repartida de maneira inédita. As partidas inaugurais estão previstas entre Uruguai, Argentina e Paraguai, enquanto o restante da competição ficaria a cargo de Espanha, Portugal e Marrocos. Essa configuração — um torneio distribuído por três continentes e seis países — expõe o caráter transnacional e conflituoso do projeto.

Um detalhe relevante é a pressão da CONMEBOL para que o Mundial se abra a 64 seleções, o que representaria cerca de 30% de todas as federações filiadas. Para Infantino, é música para os ouvidos: mais nações classificadas significam votos adicionais no Congresso da FIFA, mais bilheteria, mais direitos de transmissão e, consequentemente, mais alavancagem política. O modelo é claro: incrementar participação para consolidar poder.

Não demorou para que o presidente suíço-italiano recorresse ao afiado humor político. Ao comentar a possibilidade de ampliar o quadro de participantes, brincou às portas do Estádio Azteca: vamos ver "se a Itália se qualifica com 64, ou talvez eu tenha de colocar 228". A frase, mais do que uma alfinetada, traduz a instrumentalização do torneio como ferramenta de barganha e pressão pública.

Do ponto de vista competitivo, a proposta prevê até 16 grupos, segundo as discussões em curso — possivelmente sem mecanismo de repescagem para as melhores terceiras colocadas. A consequência esportiva é óbvia: diluição do nível médio do torneio, maior distância entre elites e aspirantes e uma revisão profunda do calendário internacional e das competições continentais.

Enquanto isso, o tabuleiro maior já foi movimentado: ao garantir uma edição 2030 repartida, Infantino também desenhou o mapa para as próximas atribuições, incluindo a garantia informal de que a Arábia Saudita teria o Mundial de 2034. Essas operações evidenciam que a distribuição dos Mundiais virou parte de uma arquitetura de poder global, em que seleções, federações e Estados se tornam peças de um jogo diplomático.

Para um país como a Itália, acostumado a ser ator central na narrativa futebolística europeia e global, a possibilidade de não disputar a Copa do Mundo em seu centenário — e ainda ser alvo de gozação pública — é sintomática de uma transformação maior: o futebol institucional passou a refletir, com clareza, as tensões e hierarquias do poder internacional.

Em última instância, a expansão para 64 seleções é menos sobre quantos jogos serão disputados e mais sobre quem decide os rumos do futebol. É um processo que envolve memória (o centenário), representação (maior número de nações) e poder (votos e interesses), e que merece ser acompanhado com a mesma atenção crítica com que observamos qualquer mudança estrutural em instituições que moldam identidades nacionais.