Irã condiciona participação na Copa-2026: negociações sobre vistos e dirigentes ligados às Guardas Revolucionárias
Irã negocia com FIFA e países-sede requisitos para disputar a Copa-2026; o nó são vistos para dirigentes com vínculos às Guardas Revolucionárias.
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Irã condiciona participação na Copa-2026: negociações sobre vistos e dirigentes ligados às Guardas Revolucionárias
O Irã formalizou nas últimas horas uma negociação paralela com a FIFA — e, por extensão, com os países-sede — sobre as garantias necessárias para disputar a Copa do Mundo 2026, marcada para Estados Unidos, Canadá e México entre 11 de junho e 19 de julho. A pauta vai muito além do campo: atravessa identidades nacionais, diplomacia e as sanções que pesam sobre membros das instituições iranianas.
No centro desse diálogo está o presidente da federação iraniana, Mehdi Taj, 66 anos, no cargo desde agosto de 2022 e vice da Confederação Asiática desde 2019. Taj carrega um passado ligado ao Corpo das Guardas Revolucionárias Islâmicas (IRGC), circunstância que, em abril, lhe rendeu a recusa de entrada no Canadá, impedindo sua participação no Congresso da FIFA em Vancouver. Além disso, Taj tem experiência jornalística: foi chefe de redação do jornal Jahan Varzesh entre 1991 e 2001.

Segundo a federação de Teerã, o país quer competir, mas apresentou à FIFA e aos organizadores uma lista de dez condições para garantir que a presença da seleção não implique renúncia a símbolos e convicções nacionais. Entre os pedidos, destacam-se garantias sobre o tratamento do grupo, a preservação da bandeira e do hino nacional, e medidas reforçadas de segurança em aeroportos, hotéis e estádios — exigências que, em termos práticos, devem ser assimiláveis pelos organizadores.
O ponto mais sensível, contudo, é o dos vistos e das autorizações de entrada. A reivindicação iraniana inclui proteção não só para atletas e treinadores, mas para dirigentes que cumpriram serviço no IRGC. Isso complica a situação: Canadá e Estados Unidos classificam o grupo como organização terrorista, e a emissão de vistos é prerrogativa soberana desses Estados, fora do alcance direto da FIFA. A entidade mundial deverá, portanto, recorrer à diplomacia de bastidores — explorando, segundo relatos, os laços do presidente Gianni Infantino com a administração de Donald Trump — para pressionar por flexibilizações.
Autoridades americanas já sinalizaram posições ambíguas: o secretário de Estado citado pelos meios divulgou que os jogadores iranianos seriam bem-vindos, mas advertiu que indivíduos com laços formais ao IRGC poderiam ter o ingresso restrito. Essa conjunção entre desígnio desportivo e política externa traduz uma tensão recorrente no esporte global: o estádio como território de convivência e, simultaneamente, de conflito simbólico entre Estados.
A federação de Teerã também pediu à imprensa que evite perguntas que não digam respeito aos aspectos técnicos da competição — evocando o precedente da Copa de 2022 no Catar, quando as manifestações internas aboutaram a cobertura e criaram atritos durante o torneio. No desenho da fase de grupos, o Irã tem duas partidas marcadas em Los Angeles: contra a Nova Zelândia em 15 de junho e contra a Bélgica em 21 de junho. Los Angeles concentra a maior comunidade iraniana nos Estados Unidos, fator que confere à agenda de segurança e imagem dimensão humana e política simultaneamente. A terceira partida do grupo, contra o Egito, será disputada em outra sede do torneio.
Do ponto de vista mais amplo, o episódio é menos uma contingência esportiva do que um sintoma das relações internacionais contemporâneas, em que eventos globais se transformam em palcos de negociação entre soberanias, memórias e políticas de segurança. Para o Irã, estar presente na Copa-2026 é uma afirmação de visibilidade e normalidade; para os países-sede, é a necessidade de conciliar hospitalidade e legislação de segurança. Entre esses polos, a FIFA tentará mediar, mas esbarrará sempre na soberania dos Estados sobre o controle de fronteiras — um lembrete de que o futebol, por mais universal que seja, continua imbricado em decisões que extrapolam o gramado.