Ita Airways registra lucro de €209 milhões e avança com cautela após aporte da Lufthansa

Ita Airways registra lucro de €209M em 2024 após reestruturação; Lufthansa adquire 41% e companhia avança com cautela entre desafios operacionais.

Ita Airways registra lucro de €209 milhões e avança com cautela após aporte da Lufthansa

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Ita Airways registra lucro de €209 milhões e avança com cautela após aporte da Lufthansa

Por Otávio Marchesini, repórter de Esportes — Espresso Italia

O que alguns apelidaram de “milagre de Fiumicino” é, na prática, o resultado de um processo de reestruturação que combina intervenção pública, capital estrangeiro e ajustes operacionais. A Ita Airways, companhia aérea principal da Itália, saiu de um acumulado de prejuízos de €866 milhões desde seu lançamento, em outubro de 2021, até 31 de dezembro de 2024, para apresentar um lucro líquido de €209 milhões em 2024 — o melhor resultado em décadas, considerando também a sua antecessora, a Alitalia.

Mas a celebração vem com advertências. O CEO e managing director Joerg Eberhart, que assumiu o comando em meados de janeiro de 2025, após a entrada do grupo Lufthansa com 41% do capital (os 59% restantes permanecem nas mãos do Tesouro italiano), evita otimismo excessivo. Em entrevista, ele lembrou que o caminho para um lucro sustentável ainda é longo e que o ambiente externo continua volátil — fatores que, por si só, tornam qualquer conquista frágil.

Como se chegou ao número de €209 milhões? Segundo Eberhart, a contribuição veio de múltiplas frentes: um EBIT de €25 milhões em linha com o ano anterior; ganhos cambiais favoráveis entre euro e dólar; custos de combustível menores que o orçado; demanda de viagens estável em relação a 2024; e as primeiras sinergias com a Lufthansa. Essas sinergias dizem respeito sobretudo a renegociações comerciais e operacionais — desde contratos de distribuição e venda de bilhetes até a racionalização do tráfego entre hubs.

Um exemplo prático explicado pelo executivo foi a eliminação de certas night stops. Antes, voos de ida e volta implicavam pernoites e diárias para tripulações: remover essas paradas eleva a margem de rota em cerca de 5% ao reduzir custos com hotéis, transportes e diárias. Houve também uma readequação da malha, com cedência de slots no aeroporto de Milão-Linate para a Austrian Airlines, pertencente ao grupo Lufthansa, e uma concentração de investimentos de marketing em mercados prioritários, ao invés de dispersar recursos.

Persistem, contudo, desafios estruturais. Os encargos relacionados a leasing e financiamento da frota somam cerca de €100 milhões por ano — despesas que, embora tratadas de forma técnica nas demonstrações contábeis, impactam diretamente a economia da companhia. Além disso, 2025 se mostrou um ano turbulento: mais de um quarto da frota ficou em terra por problemas com motores de nova geração, forçando rearranjos operacionais e perda de capacidade.

Há ainda fatores exógenos: o conflito no Médio Oriente e a instabilidade geopolítica alteram rotas, seguradoras e confiança do passageiro. A entrada da Ita Airways na Star Alliance é um movimento estratégico que amplia conectividade e posição comercial, sobretudo na frente transatlântica, onde a empresa aposta em aeronaves como o Airbus A350 para reforçar ligações a Nova York e Los Angeles. Mas pertencer a uma aliança global e a um grande grupo europeu também implica compromissos e trade-offs — diante dos quais a soberania da política de conectividade nacional volta a ser tema de debate.

Na ótica histórica e institucional, a trajetória da Ita Airways diz respeito a algo maior que balanços: é a tentativa de reinventar a presença aérea italiana num continente onde a consolidação e as alianças definem rotas, hubs e influencia econômica. O lucro de 2024 é um passo importante, mas não encerra a necessidade de vigilância financeira, controle de custos e gestão de riscos geopolíticos. Como concluiu Joerg Eberhart, o mérito é de toda a equipe — e a preservação desse ganho dependerá, mais do que de um balanço favorável, de decisões estratégicas coerentes nos próximos meses.