Morre Geovani, o brasileiro que fez sonhar o Bologna de Corioni
Geovani, ex-Vasco e ídolo do Bologna, morreu aos 62 anos. Lembrado pelo golaço ao Franchi e pela luta contra a polineuropatia.
RESUMO ✦
Sem tempo? A Lili IA resume para você
Morre Geovani, o brasileiro que fez sonhar o Bologna de Corioni
Faleceu no dia 18 de maio, no Brasil, aos 62 anos, Geovani Silva, jogador que deixou marca ambígua e duradoura na memória do Bologna e no imaginário dos torcedores italianos. A causa foram complicações de uma polineuropatia que ele enfrentava desde 2003, uma enfermidade contra a qual travou uma longa batalha.
Conhecido no Brasil como o "pequeno príncipe" por sua elegância técnica e por dois pés capazes de produzir cenas de rara beleza, Geovani vinha de uma trajetória brilhante no Vasco da Gama — onde disputou 206 partidas e marcou 27 gols, além de conquistar quatro títulos do Campeonato Carioca. Sua vinda ao futebol italiano, porém, foi curta e carregada de expectativas.
No verão de 1989, o presidente Gino Corioni pagou quase dez bilhões de liras para trazê-lo a Bolonha, vendo nele o farol do meio-campo do time de Gigi Maifredi. Corioni não poupou hipérboles: chamou Geovani de um dos "cinco melhores jogadores do mundo" e sempre teve um gosto por pequenas grandes promessas — uma inclinação que também o levara, em outras ocasiões, a investir em nomes de talento em clubes como o Brescia.
A temporada rossoblù de Geovani durou apenas uma campanha: 28 jogos, 18 como titular, e dois gols no campeonato. Ainda assim, o que fica na lembrança é a síntese do talento em um lance: no dia 5 de novembro de 1989, no Franchi contra a Fiorentina, acertou um verdadeiro siluro de cerca de 30 metros que fulminou Marco Landucci — um futebol de cinema que se eternizou na memória de quem viu. Depois da partida, dedicou aquele golaço a Ivan Dall'Olio, torcedor bolognese gravemente ferido nos confrontos em Florença cinco meses antes, gesto que traduzia o vínculo humano entre atleta e cidade.
Mais do que estatísticas, a passagem de Geovani pelo Bologna ilustra uma época de transição no futebol: o brilho técnico de meias mágicos encontrava-se com uma disciplina tática e física em evolução. Na Itália daquele final dos anos 80, a promessa de classe por si só já foi tratada como projecto de identidade coletiva — um investimento afetivo e social, tanto quanto esportivo.
Ao longo dos anos, o carinho dos bolognesi não o abandonou. Em 2009, por ocasião do centenário do clube, foi recebido com emoção. Em entrevista de 2017, quando parecia viver uma melhora relativa, disse: "Senti-me em casa, tenho lembranças lindas da cidade e do povo; sempre dei o máximo por essa torcida". Em 2016, participou do acendimento da tocha olímpica do Rio ao lado do amigo Romário, e, no ano passado, publicou nas redes uma homenagem à conquista da Coppa Italia pelo Bologna, mostrando que o vínculo permanecia vivo.
Como repórter e observador das tramas que atravessam o esporte, vejo em Geovani uma figura que resume a tensão entre promessa e realidade, entre espetáculo e sustentação institucional. Seu brilho curto em solo italiano não apaga o valor simbólico de sua presença: jogadores como ele entram na história não apenas pelos números, mas pela capacidade de fazer uma cidade sonhar — mesmo quando a duração desse sonho é menor do que se esperava.
Fica o registro da carreira e da luta de um atleta que jamais deixou de sorrir e que, em episódios como o golaço no Franchi, ofereceu à memória coletiva um instante de pura beleza. À família, amigos e admiradores, a Espresso Italia e este repórter registram condolências e respeito por uma trajetória que atravessou oceanos e afetos.