A recuperação de Aryna Sabalenka: de críticas e tragédias à liderança do tênis mundial
Aryna Sabalenka transformou críticas e tragédias em combustível: de 28 anos, é nº1 do mundo com quatro Grand Slams e fala sobre perdas e preconceitos.
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A recuperação de Aryna Sabalenka: de críticas e tragédias à liderança do tênis mundial
Por Otávio Marchesini, Espresso Italia — A trajetória de Aryna Sabalenka reúne elementos que vão além do resultado nas quadras: é um retrato das pressões, dos estigmas e das vulnerabilidades que cercam atletas de alto rendimento na Europa contemporânea. Em entrevista à Vogue, a campeã bielorrussa resumiu com franqueza as vozes críticas que marcaram o início de sua carreira: “Muitos treinadores diziam que eu era estúpida e que a única coisa que eu sabia fazer era bater na bola com força, que eu nunca entraria no top 100”.
Sabalenka, aos 28 anos, transformou essas palavras em combustível. Hoje são quatro títulos de Grand Slam no currículo — duas vezes campeã do US Open e duas vezes do Australian Open — e o posto de número 1 do mundo no ranking WTA. Enquanto se prepara para o Roland Garros, a jogadora voltou a contar os percalços pessoais e institucionais que atravessaram sua carreira.
Um ponto de virada foi o encontro com o empresário bielorrusso Alexander Shakutin, que, segundo Sabalenka, foi o primeiro a acreditar de fato no seu potencial e a oferecer suporte financeiro concreto. “Havia outras pessoas que acreditavam em mim, mas foi ele quem realmente me ajudou”, relatou à revista. Esse apoio material e institucional foi peça-chave para que o talento bruto encontrasse disciplina e estrutura.
As dificuldades, porém, não foram apenas esportivas. Em 2019, quando treinava em Minsk, Sabalenka sofreu com a morte repentina do pai. “Dizem que o tempo ajuda, mas agora está mais difícil, porque sei quanto meu pai se divertiria vendo meu sucesso”, disse ela. A lembrança revela como triunfos públicos raramente apagam feridas privadas; ao contrário, intensificam a saudade e a consciência do que poderia ter sido compartilhado.
Houve ainda um outro episódio traumático: a morte do ex-companheiro Konstantin Koltsov, que em 18 de março de 2024 caiu do 23º andar de um hotel em Miami; a ocorrência foi classificada como suicídio. Na época, Sabalenka já não era mais sua parceira. “Briguei com o policial quando chegou para me dar a notícia — não conseguia aceitar”, contou. Ela tentou seguir a rotina profissional, participou do torneio seguinte e foi eliminada na terceira rodada. Em campo, quebrou uma raquete e cancelou a entrevista coletiva. “Voltar a trabalhar era a única solução”, afirmou.
Além das perdas pessoais, Sabalenka enfrenta o escrutínio público exacerbado pelas redes sociais. “Não passo muito tempo nelas, mas às vezes vejo comentários aleatórios e pergunto ao meu empresário: ‘Realmente as pessoas me odeiam tanto assim?’”, confidenciou. Ela enumerou as críticas: aparência física, suas expressões e gritos em quadra, a nacionalidade e até a vida privada — um fenômeno que expõe como atletas mulheres continuam a ser avaliadas por padrões que pouco têm a ver com o mérito esportivo.
O percurso de Aryna Sabalenka é, podemos dizer, emblemático de uma mudança mais ampla no tênis: a profissionalização e a construção de carreiras exigem redes de suporte que combinam investimento privado, gestão emocional e resiliência cultural. Seus títulos e a ascensão ao topo do ranking não apagam as críticas do passado, mas oferecem uma narrativa alternativa — a de alguém que recusou a redução simplista a um estereótipo técnico e construiu, ao longo dos anos, uma identidade esportiva reconhecida mundialmente.
Como analista, observo que histórias assim nos forçam a repensar o modo como avaliamos o sucesso no esporte. Há mérito nas vitórias, sem dúvida, mas há também aprendizado nas derrotas e nas perdas pessoais que as atravessam. Sabalenka não é apenas uma campeã por suas troféus: é um símbolo de como o esporte contemporâneo dialoga com economia, imagem pública e vulnerabilidade humana.