Como a UFI, fabricante italiana, virou padrão de filtros na Fórmula 1: da Ferrari em 1978 ao domínio atual
UFI, de Nogarole Rocca, domina filtros na Fórmula 1: da estreia com a Ferrari em 1978 ao fornecimento a todas as 11 equipes atuais.
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Como a UFI, fabricante italiana, virou padrão de filtros na Fórmula 1: da Ferrari em 1978 ao domínio atual
Por Otávio Marchesini — Em um esporte em que cada grama e cada milésimo de segundo contam, há fornecedores que permanecem invisíveis ao grande público, mas cujo papel é decisivo para a performance e a segurança. A história da UFI é um desses casos: uma empresa do interior do Vêneto que, ao longo de décadas, transformou um produto aparentemente secundário — o filtro — em peça-chave da Formula 1 moderna.
Tudo começou de modo aparentemente casual: um encontro com técnicos de Maranello no final dos anos 1970 deu origem a uma parceria que culminou na primeira vitória com componentes UFI no Grande Prêmio da Grã-Bretanha de 1978, quando Carlos Reutemann venceu em Brands Hatch a bordo da Ferrari 312 T3. Foi o início de um relacionamento com a Ferrari que não se desfez e que empurrou a empresa — com sede principal em Nogarole Rocca, no Vêneto — para um papel cada vez mais central no automobilismo internacional.
Hoje a realidade é ampla: a UFI opera com cerca de 22 instalações espalhadas pelo mundo e fornece filtros de combustível, óleo, ar e de diversos circuitos hidráulicos para fabricantes de carros, caminhões, motos e até helicópteros — incluindo construtores chineses. Mais notório ainda é o fato de que, no parque de máquinas da Fórmula 1, os filtros produzidos no polo de Marcaria (Mantova) equipam os carros de todas as onze equipes que disputam o Mundial.
O que configura uma espécie de monopólio técnico não é apenas a quantidade, mas a diversidade e a complexidade dos componentes: as 22 monoplaces em campo utilizam, somadas, cerca de 110 filtros UFI. Eles se dividem em dois grandes grupos. O primeiro é o conjunto ligado ao motor — filtros principais e secundários de óleo, filtros de alta pressão do circuito de combustível e o filtro de ar do motor, posicionado em local crítico para a aerodinâmica. O segundo abrange o chassi: soluções para circuitos de refrigeração (incluindo as partes híbridas) e filtros que asseguram o funcionamento dos sistemas hidráulicos — servosterço, freios e asas móveis — diretamente relacionados à segurança do piloto.
O salto tecnológico é nítido quando se compara o passado e o presente. Componentes que outrora eram feitos em chapa estampada, pesando cerca de 1,5 kg, hoje são fabricados com materiais de alta performance — titânio, carbono, Ergal, fibras vítreas e poliméricas, além de aço sinterizado — e pesam pouco mais de 60 gramas. Essa miniaturização e ganho de eficiência têm repercussões imediatas: além de influir diretamente no rendimento e na confiabilidade dos monopostos, as soluções desenvolvidas para o circuito têm efeito retornar para o produto de série, melhorando filtros de veículos rodoviários.
Como analista que observa o esporte em sua dimensão social e tecnológica, vejo na trajetória da UFI um exemplo de como a indústria italiana combina tradição e especialização para produzir vantagem competitiva. Não é apenas o prestígio de ver um logotipo em vitrines; é o trabalho contínuo de pesquisa, testes e adaptação às exigências extremas da Fórmula 1. O ambiente de competição força avanços que, no ciclo virtuoso entre pista e fábrica, reverberam na mobilidade cotidiana.
Num momento em que a Fórmula 1 amplia sua gama de fabricantes e tecnologias — incluindo as estreantes de alto investimento —, a confiança dos times em um fornecedor especializado como a UFI diz muito sobre a centralidade da qualidade industrial italiana: silenciosa, técnica e, por isso mesmo, indispensável.