25º Emenda, Trump e o risco de uma guerra sem fim: quando a Constituição americana vira último freio
O 25º Emendamento volta ao centro: a publicação de Trump e o risco de uma escalada que transforma a Constituição em último freio global.
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25º Emenda, Trump e o risco de uma guerra sem fim: quando a Constituição americana vira último freio
Por Marco Severini — Espresso Italia
Há artigos constitucionais que, na vida política real, parecem reservados a tratados acadêmicos. O 25º Emendamento é um deles: ratificado em 1967 no rescaldo emocional do assassinato de Kennedy, ele institui um mecanismo pelo qual o vice‑presidente, com o apoio da maioria do gabinete, pode declarar que o Presidente dos Estados Unidos está inapto para exercer o cargo.
Nos corredores de Washington, nas salas de think tanks e nas timelines das redes sociais, essa cláusula constitucional deixou de ser jargão técnico para tornar‑se palavra de ordem. O catalisador foi, em plena manhã de Páscoa, uma publicação do Presidente Donald Trump em sua plataforma Truth Social, na qual ameaçou explicitamente bombardear usinas elétricas e pontes no Irã se o Estreito de Hormuz não fosse reaberto até terça‑feira. A mensagem usava linguagem chula, garantia um “Tuesday will be Power Plant Day, and Bridge Day... Open the Strait, you crazy bastards, or you'll be living in Hell – JUST WATCH!” e concluía, de modo provocador, com a expressão “Praise be to Allah”.
Um chefe de Estado cristão celebrando a Ressurreição enquanto profere ameaças de aniquilamento e invocações de fé estrangeira: a imagem soaria inverossímil se não estivesse sendo transmitida por quem ocupa a cadeira executiva da potência hegemônica. A reação foi imediata e transversal. O senador democrata Chris Murphy disse que, se estivesse no gabinete, passaria o domingo de Páscoa em conversas com assessores jurídicos buscando ativar o 25º Emendamento; a deputada Yassamin Ansari afirmou que o dispositivo existe exatamente para situações em que “o Presidente é um perigo à segurança nacional”.
Surpreendeu, porém, o peso das vozes dissidentes dentro do próprio campo de apoio de Trump: Marjorie Taylor Greene, até então aliada vociferante, escreveu que “o conheço e ele enlouqueceu, e todos vocês são cúmplices”. Mesmo Anthony Scaramucci, ex‑diretor de comunicações da Casa Branca, evocou a intenção original dos Pais Fundadores ao preverem um mecanismo para remover um executivo fora de si.
O pano de fundo é uma escalada que foge a qualquer precedência recente. Em 28 de fevereiro de 2026, Estados Unidos e Israel lançaram ataques aéreos surpresa sobre alvos no Irã, resultando no assassinato da figura máxima do regime, a Guida Suprema Ali Khamenei, e de outros altos funcionários, com mais de cem vítimas civis contabilizadas nos primeiros ataques. A guerra, desde então, mostra rapidez e irracionalidade na perda de controle — uma dinâmica que transforma cada reação em risco de amplificação e cria a perspectiva sombria de um conflito sem fim.
No xadrez da diplomacia e da estratégia, a invocação do 25º Emendamento seria um movimento extraordinário: não só porque retira temporariamente o comando do jogador principal, mas porque redesenha, ainda que provisoriamente, as linhas de autoridade e as expectativas de aliados e adversários. É uma jogada que pode estabilizar ou precipitar uma crise constitucional — dependendo da forma, tempo e narrativa política com que for executada.
Do ponto de vista institucional, o procedimento previsto é claro, porém a sua aplicação é politicamente corrosiva. Exige que o vice‑presidente e a maioria do gabinete declarem incapacidade; impõe um confronto público entre poderes; e, no final das contas, submete o país a um teste de coesão interna num momento em que lideranças e instituições deveriam preservar a calma estratégica.
Além do cenário interno, há efeitos externos imediatos: aliados europeus e asiáticos observam alarmados, mercados financeiros oscilam, rotas marítimas essenciais ficam sob risco, e a chamada tectônica de poder regional sofre um redesenho de fronteiras invisíveis. A última coisa que a estabilidade global precisa é de um impulso impulsivo do Executivo que transforme uma crise regional numa conflagração prolongada.
Como analista, vejo dois imperativos: primeiro, conter a escalada através dos canais institucionais competentes — Congresso, gabinete, comando militar — respeitando o ritual constitucional mas sem transformá‑lo em espetáculo; segundo, restaurar, com prudência diplomática, o equilíbrio no tabuleiro estratégico, abrindo vias de desescalada multilaterais que evitem a armadilha de uma guerra sem término.
Em momentos assim, a Constituição americana pode tornar‑se, paradoxalmente, a última esperança do mundo. Mas só valerá como âncora se os atores a tratarem não como arma partidária, e sim como alicerce da ordem. Caso contrário, o movimento que se pretender corretivo poderá agravar a ruptura — e essa é a aposta que nenhum estadista responsável deveria aceitar.