Pesquisa: 62% dos israelenses rejeitam a promessa de “vitória total” de Netanyahu em Gaza; primeiro‑ministro cada vez mais isolado
Pesquisa aponta que 62% dos israelenses não acreditam na 'vitória total' de Netanyahu em Gaza; eleitorado e aliados internacionais se mostram cada vez mais céticos.
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Pesquisa: 62% dos israelenses rejeitam a promessa de “vitória total” de Netanyahu em Gaza; primeiro‑ministro cada vez mais isolado
Por Marco Severini — Em interpretações que lembram um movimento decisivo no tabuleiro, a mais recente sondagem realizada por Midgam e difundida pela emissora Channel 12 revela um desgaste estrutural no esquema político do primeiro‑ministro Benjamin Netanyahu. Segundo a pesquisa, 62% dos israelenses não acreditam mais na promessa de “vitória total” em Gaza — isto é, na eliminação do grupo islâmico Hamas e na retomada da Faixa de Gaza por Tel Aviv.
O resultado traduz uma erosão substancial do capital político do premier a menos de três meses das eleições previstas para 27 de outubro. Apenas cerca de um quarto dos entrevistados (entre 25% e 28%, conforme as perguntas do levantamento) ainda confia que a promessa de vitória será cumprida. Em termos de política externa e segurança, trata‑se de um redesenho das expectativas públicas: os alicerces da diplomacia de guerra demonstram rachaduras diante de uma percepção cada vez mais difundida de combates prolongados sem desfecho decisivo.
O levantamento amplia o foco para o contexto internacional. Nos Estados Unidos, pesquisas paralelas indicam que metade dos cidadãos considera que Netanyahu deveria ser responsabilizado judicialmente, com 47% o vendo como culpado de genocídio e 49% apoiando sua prisão. Esse retrocesso de apoio, sobretudo entre faixas etárias mais jovens, aponta para uma tectônica de poder que afeta não apenas a cena doméstica israelense, mas também as bases transatlânticas de legitimidade do governo.
Além da descrença quanto à derrota de Hamas, o estudo sinaliza ceticismo sobre a neutralização das outras forças armadas na região: 72% dos israelenses acreditam que o Hamas não se desarmará; 63% pensam da mesma forma sobre o Hezbollah no Líbano. Há aqui uma visão estratégica amarga — em vez de um acordo ou desmobilização, o eleitorado enxerga um tabuleiro repleto de peças ainda ativas.
Complementarmente, uma sondagem da Universidade de Jerusalém em parceria com o Instituto Agam relaciona a percepção sobre vencedores e perdedores do conflito: 92,1% dos entrevistados veem o Irã como beneficiário indireto da situação, enquanto 86,4% se mostram contrários a eventuais acordos que possam aproximar Washington e Teerã sem garantias claras.
Como analista de relações internacionais, observo que o cenário desenhado por esses números não é apenas um problema de comunicação: é uma reconfiguração estratégica. Quando a população deixa de ver uma saída militar como viável, o governo perde a autoridade para moldar o horizonte político. É como uma partida em que o rei permanece exposto, sem a cobertura adequada das torres e bispos — a estabilidade passa a depender mais de manobras diplomáticas prudentes do que de promessas de ruptura definitiva.
Para Netanyahu, a janela para recuperar iniciativa política exige agora movimentos de alto nível: conciliação interna, clareza sobre objetivos finais, e garantias internacionais que restituam credibilidade. Sem esses passos, o primeiro‑ministro corre o risco de permanecer isolado — não apenas no front interno, mas também nas curvas estratégicas do cenário global.
Marco Severini é analista sênior de geopolítica e estratégia para Espresso Italia. A análise acima prioriza a leitura de longo prazo e os mecanismos de poder por trás das decisões públicas.