Afeganistão: a resistência silenciosa das mulheres que desafia o Talibã e preocupa o mundo

Detenções em Herat e Cabul expõem a resistência silenciosa das mulheres afegãs contra o Talibã; ONU e UE manifestam preocupação.

Afeganistão: a resistência silenciosa das mulheres que desafia o Talibã e preocupa o mundo

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Afeganistão: a resistência silenciosa das mulheres que desafia o Talibã e preocupa o mundo

Quase cinco anos após o retorno do Talibã ao poder em Cabul, a situação das mulheres afegãs permanece como um tabuleiro cujas peças foram rearranjadas em desfavor da metade da população. Nos últimos dias, uma nova onda de detenções em Herat — e relatos de prisões também em Kabul — trouxe à tona a face mais brutal de um sistema que tem organizado a exclusão feminina como mecanismo de governo.

As prisões ocorreram durante ações da polícia moral, vinculada ao Ministério para a Propagação da Virtude e a Prevenção do Vício (MPPVV), após mulheres serem detidas por não usar o chador ou o burqa. Testemunhos locais relatam que as detidas foram colocadas em veículos e, desde então, muitas desapareceram das vistas públicas. Uma manifestação foi reprimida com força, resultando em ao menos uma vítima fatal — episódios que motivaram condenações da União Europeia e preocupação da ONU.

Do ponto de vista estratégico, trata-se de uma ação localizada que pretende enviar uma mensagem dissuasória: transformar o cotidiano em um exercício constante de vigilância e intimidação. Herat, histórica e culturalmente mais aberta do que outras províncias, sofreu uma apertada mais intensa, em parte atribuída à maior proximidade do governador local com a ala conservadora do Talibã. Segundo relatos de ONGs presentes no terreno, as manifestações em Herat chegaram a contar com a presença de homens, sinalizando um descontentamento que ultrapassa as fronteiras do gênero e se torna mais amplo socialmente — um movimento que, contudo, paga caro quando decide desafiar abertamente o novo status quo.

Em Roma, manifestações de solidariedade foram convocadas por jovens afegãs refugiadas, com apoio do Partido Radical. A mobilização em Piazza Santi Apostoli é mais do que um ato simbólico: é um lembrete de que a tectônica de poder que redesenha as fronteiras invisíveis da sociedade afegã tem repercussões globais e exige atenção constante das diplomacias ocidentais.

Organizações humanitárias que atuam no país, como a ONG italiana Nove Caring Humans, alertam que desde a queda de Cabul as mulheres foram sistematicamente expulsas da educação, do trabalho formal, da vida pública, do acesso à justiça e, em muitos casos, até dos espaços humanitários, quando lhes é vedado trabalhar em cooperação com agências das Nações Unidas. Dados de UN Women indicam que quase 80% das meninas e jovens não frequentam a educação secundária ou universitária — um quadro que especialistas chamam, sem rodeios, de apartheid de gênero institucionalizado.

Para analistas no terreno, a estratégia do Emirato Islâmico é dupla: por um lado, instaura uma disciplina social rígida que controla corpos e comportamentos; por outro, projeta uma imagem interna de ordem e autoridade. No entanto, essa constrição constante gera fissuras — a chamada resistência silenciosa — que podem, ao longo do tempo, transformar-se em formas mais articuladas de oposição. Resistir hoje no Afeganistão é operar sob risco extremo: prisões sumárias, desaparecimentos e repressão violenta são a resposta previsível a qualquer forma de desafio público.

Na arquitetura da política internacional, o caso afegão volta a testar os alicerces da resposta ocidental: condenações diplomáticas, apelos das Nações Unidas e gestos de solidariedade mostram limites quando confrontados com a realidade nua de um regime que estrutura o poder sobre a exclusão sistemática das mulheres. A comunidade internacional enfrenta, assim, um dilema clássico de Realpolitik: como pressionar sem reduzir ainda mais o espaço de sobrevivência das populações vulneráveis.

Enquanto isso, a voz das afegãs permanece muitas vezes inaudível, envolta numa bolha de invisibilidade que se estendeu desde o verão de 2021. A vigilância sobre esses acontecimentos e a articulação de respostas que contemplem proteção, apoio humanitário e pressão diplomática precisam ser pensadas com a precisão de um movimento num jogo de xadrez — antecipando reações e preservando, acima de tudo, a segurança das peças humanas que ali resistem.