Em Berlim, a AfD surge como primeiro partido nas sondagens a dois meses das eleições regionais

AfD lidera sondagens em Berlim a dois meses das eleições regionais; ataque no Pride e renúncia de Kai Wegner mexem no tabuleiro político.

Em Berlim, a AfD surge como primeiro partido nas sondagens a dois meses das eleições regionais

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Em Berlim, a AfD surge como primeiro partido nas sondagens a dois meses das eleições regionais

Por Marco Severini — A apenas dois meses das eleições para o Parlamento regional de Berlim e a escolha do prefeito regional, a Alternative für Deutschland (AfD) emerge como força política predominante nas últimas sondagens, deslocando o eixo partidário na capital tradicionalmente hostil à ultradireita. Observamos aqui um movimento decisivo no tabuleiro político alemão, cujas peças se rearranjam entre vetores de medo, segurança e identidade.

Num inquérito do instituto Forsa datado de 21 de julho, a AfD aparece, a nível federal, com 26% das intenções de voto, à frente da coligação CDU/CSU em 22%. Em Berlim, segundo a pesquisa Insa para o portal de notícias Nius, próxima à direita populista, a AfD, com a candidata Kristin Brinker, alcança 19%, posicionando-se à frente de Die Linke, que soma 18%.

O mesmo levantamento atribui aos Verdes 16% e ao SPD 13%. As formações liberais FDP e o novo BSW (Bündnis Sahra Wagenknecht) estariam nos 4% cada, abaixo do limiar que lhes garantiria assentos no Abgeordnetenhaus. Estas cifras contrastam com outra medição da Infratest dimap para a emissora RBB, que dava à Linke 22%, à AfD 16% e à CDU 20% — lembrando que as sondagens continuam a desenhar um tabuleiro em movimento.

O atual parlamento regional de Berlim, composto por 159 assentos, encontra-se dividido entre a maioria do governo (CDU 52 e SPD 34) e a oposição (Verdes 34, Die Linke 22 e AfD 17). É importante sublinhar que, em Berlim, o prefeito regional é eleito pelos parlamentares uma vez formada a coalizão de governo. A decisão do líder da CDU, Kai Wegner, de renunciar à candidatura como cabeça de lista nas eleições de setembro parece ter alterado o cálculo político e contribuído para a variabilidade das sondagens.

Na esfera simbólica e emocional, a AfD soube capitalizar politicamente o atentado ocorrido durante o cortejo do Pride — um atentado com forte carga identitária que abalou a opinião pública local. A líder do partido, Alice Weidel, descreveu o ataque como "um horrível atentado islamista" e declarou, em entrevista ao Bild, votos de recuperação para os feridos e firmeza em não deixar o crime impune. O autor do ataque, Abdul Ballout, 21 anos, cidadão alemão de origem libanesa, foi abatido pela polícia; sabe-se que tinha integrado um programa de desradicalização após tentativa de adesão ao Isis na Síria.

Na narrativa da AfD, além da crítica às políticas migratórias e à restrição do direito de asilo, o islamismo é apresentado como uma ameaça à integridade do Estado e aos valores ocidentais alemães — uma linha que encontra ressonância em parcelas do eleitorado inseguro frente às rápidas alterações demográficas e culturais.

Os principais partidos democráticos — CDU, Verdes e SPD — já declararam a inviabilidade de formar coalizões com a AfD, o que desenha cenários complexos: vitória eleitoral da AfD não significa automaticamente capacidade de governar. O que está em jogo é menos uma transferência imediata de poder e mais um redesenho das fronteiras invisíveis da legitimidade política em Berlim — um testemunho da tectônica de poder em mudança na Alemanha.

Num momento em que a capital se assume como laboratório político e simbólico, a competição entre sondagens contraditórias e eventos traumáticos como o ataque do Pride escancaram a fragilidade dos alicerces da diplomacia interna e a necessidade de estratégias de longa duração para estabilizar o consenso democrático.

Marco Severini — Espresso Italia