Bilhete de Epstein, revelado agora, diz: ‘Não encontraram nada’ — juíz ordena divulgação após segredo de cinco anos

Bilhete atribuído a Epstein, agora divulgado após sigilo de cinco anos, afirma que "não encontraram nada"; juiz Karas autorizou a divulgação.

Bilhete de Epstein, revelado agora, diz: ‘Não encontraram nada’ — juíz ordena divulgação após segredo de cinco anos

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Bilhete de Epstein, revelado agora, diz: ‘Não encontraram nada’ — juíz ordena divulgação após segredo de cinco anos

Por Marco Severini — Em um movimento que reconstitui, peça por peça, um capítulo controverso do processo, o bilhete atribuído a Jeffrey Epstein e que, segundo o seu ex-companheiro de cela, teria sido escrito pouco antes do alegado suicídio, foi finalmente tornado público depois de quase cinco anos sob sigilo num cofre do tribunal.

O pedido de divulgação foi acolhido pelo juiz Kenneth Karas, da jurisdição de White Plains, Nova York, após solicitação do New York Times. A nota, cuja autoria não foi estabelecida de forma incontroversa, havia permanecido fechada nos autos de um processo distinto envolvendo o também detento Nicholas Tartaglione.

Tartaglione — ex-agente de polícia condenado a prisão perpétua por quatro homicídios — afirmou em entrevistas e, posteriormente, num podcast, que encontrou o bilhete dentro de um livro em sua cela depois que Epstein foi encontrado, em 23 de julho de 2019, com uma tira de lençol ao redor do pescoço. Quatro dias depois, conforme a cronologia dos autos, ele comunicou o fato ao seu advogado e o documento acabou sendo apresentado como prova no seu próprio julgamento.

O texto, em trechos de difícil leitura, contém frases que sugerem frustração e vontade de escolha final: “Me investigaram por meses, não encontraram nada!!!”, lê-se; “É um prazer poder escolher o momento de dizer adeus”, e ainda expressões como “Cosa vuoi che faccia... Scoppiare a piangere!!” — trechos estes traduzidos e interpretados nos autos como reflexos de um estado emocional conflituoso. O bilhete termina com palavras sublinhadas: “NÃO VALE A PENA!!”.

Epstein foi encontrado morto na cela do Metropolitan Correctional Center, em Manhattan, em 10 de agosto de 2019, enquanto aguardava julgamento por acusações de tráfico sexual. A morte foi classificada pelo legista como suicídio, e relatórios oficiais identificaram uma série de falhas e negligências por parte do pessoal do estabelecimento — desde lapsos na vigilância até condutas inadequadas que, segundo as apurações, facilitaram o desfecho fatal.

Importante notar: os relatórios governamentais extensos que reconstituíram as circunstâncias da morte de Epstein não mencionaram o bilhete agora divulgado. O juiz Karas, ao justificar sua decisão, ponderou o interesse de privacidade de terceiros, inclusive do próprio Epstein; concluiu, contudo, que os direitos à privacidade de uma pessoa falecida são consideravelmente reduzidos e que a publicação dificilmente causaria dano concreto.

Na geopolítica dos bastidores, este episódio funciona como um movimento numa partida de xadrez: peças antigas — documentos, provas, depoimentos — reposicionam-se no tabuleiro, redesenhando a percepção pública sobre um caso que permanece um nó sensível nas relações entre poder, impunidade e responsabilidade institucional. A divulgação não resolve todos os enigmas, mas desloca rotas de interpretação e abre novas frentes de escrutínio judicial e jornalístico.

Resta a pergunta estratégica: que outras peças permanecem no cofre? E quais alicerces frágeis da cadeia de comando carcerária e de investigação precisam ser reconstruídos para evitar novos colapsos de responsabilidade?