Bolívia à beira da instabilidade: um mês de protestos e a ameaça de uso do exército

Um mês de protestos na Bolívia, bloqueios em seis departamentos e a ameaça de uso do exército por parte do presidente Rodrigo Paz.

Bolívia à beira da instabilidade: um mês de protestos e a ameaça de uso do exército

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Bolívia à beira da instabilidade: um mês de protestos e a ameaça de uso do exército

Por Marco Severini — A Bolívia atravessa um mês de intensa convulsão social, com um padrão de bloqueios e confrontos que redesenha, de forma tensa, a cartografia política do país. São mais de noventa vias obstruídas em seis departamentos, com epicentro em La Paz e em Cochabamba, esta última reconhecida como reduto do ex-presidente Evo Morales Ayma. O movimento combina camponeses, mineiros, transportadores e setores urbanos, muitos de origem indígena, num mosaico de demandas e frustrações.

As manifestações começaram em 1º de maio com exigências econômicas e sociais: a revogação da Lei 1720 — que permitia a hipoteca da terra em troca de crédito — o reajuste de salários, em especial de professores e operários, e a melhoria da qualidade do combustível, que provocou a ira dos transportadores. Rápida e decisiva, a pauta evoluiu para um objetivo político central: a queda do presidente conservador Rodrigo Paz, no cargo há seis meses.

Em torno do Palacio Quemado ecoam gritos como “Que renuncie, carajo!”, enquanto o perímetro do Executivo permanece protegido por forças policiais. Vicente Salazar, presidente da Federação de Trabalhadores Camponeses de La Paz “Túpac Katari”, sintetizou o pedido das províncias: a renúncia de Rodrigo Paz. A Central Obrera Boliviana (COB), por sua vez, descartou o chamado do governo ao diálogo. Via porta-voz José Luis Álvarez, a entidade deixou claro: “mantemos as medidas de pressão. Não há alternativa. Descartamos o diálogo.”

Entre as alternativas políticas em discussão surgem propostas distintas: um referendo revocatório da Presidência, apesar de esse instrumento só ser aplicável por regra na metade do mandato (daqui a dois anos), a aceleração desse prazo ou até eleições antecipadas. Esse leque revela, estrategicamente, a tentativa de transformar pressão de rua em ruptura institucional.

O saldo de confrontos vem elevando o preço humano da crise. Organizações sindicais denunciam um endurecimento da repressão: mais de 127 prisões e ao menos um morto por ação policial, Víctor Cruz Quispe, 24 anos, abatido por disparos em 25 de maio. O governo emitiu condolências depois de uma resposta inicial marcada por negações, por meio do porta-voz José Luis Gálvez.

O Ministério da Saúde alerta para efeitos indiretos dos bloqueios: ao menos cinco pacientes teriam morrido por falta de oxigênio, escassez de medicamentos e suspensão de serviços médicos. Em resposta, o presidente anunciou a abertura de corredores humanitários para abastecer unidades de saúde. Ao mesmo tempo, Rodrigo Paz afirmou que o país precisa de ordem e descreveu a crise como “pior que a pandemia”, ao reduzir pela metade seu próprio salário (de US$ 3.448 mensais) e ameaçar, como última carta, o emprego das Forças Armadas.

Do meu ponto de vista, a situação é um movimento decisivo no tabuleiro regional: as peças não são apenas governamentais e sindicais, mas territoriais e simbólicas — a tensão entre o Estado moderno e as demandas dos povos indígenas, agravada por políticas econômicas percebidas como exógenas. A opção por convocar o exército como ferramenta política representa um risco de erosão dos alicerces democráticos e da estabilidade institucional, com potencial de transformar bloqueios em rupturas mais profundas.

Enquanto os atores encaram a sequência de jogadas, a Bolívia vive uma tectônica de poder em rápida transição. O futuro próximo dependerá da capacidade de encontrar saídas que conciliem ordem pública, legitimação democrática e reparação dos laços sociais quebrados por anos de polarização.