Bruxelas relembra os atentados de Zaventem e Maelbeek: dez anos de memória e resiliência
Bruxelas celebra 10 anos dos atentados de Zaventem e Maelbeek com cerimônias, memoriais e reafirmação da resiliência europeia.
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Bruxelas relembra os atentados de Zaventem e Maelbeek: dez anos de memória e resiliência
Por Marco Severini — Dez anos após os ataques que abalaram o coração institucional da Europa, Bruxelas se reúne em um fim de semana de lembrança, ritos cívicos e reflexões sobre as fragilidades da segurança coletiva. Nesta manhã, a poucos passos do edifício da Comissão Europeia, uma cadeia humana na estação de Maelbeek reuniu cidadãos, sobreviventes e autoridades para homenagear as 32 vítimas e os cerca de 340 feridos dos três atentados que marcaram a capital belga.
O balanço de vítimas, registrado hoje, inclui nomes que a tragédia lançou na longa esteira do sofrimento: uma jovem sobrevivente que, após anos de depressão, recorreu à eutanásia, e um homem que tirou a própria vida em consequência do choque pós-traumático. Esses casos estendem o alcance da violência para além do momento das explosões, lembrando que os efeitos se radicam como fissuras na pedra da convivência.
A cronologia dos fatos permanece nítida. Às 7h58 duas detonacões, separadas por poucos segundos, devastaram a área de partidas do Terminal A do aeroporto de Zaventem. Investigadores concluíram que um terceiro atacante pretendia se detonar, mas foi arremessado pela onda de choque. Em minutos, imagens estremeceram o mundo, voos foram cancelados e o pânico se espalhou pela cidade.
Às 9h04 as autoridades belgas elevaram o alerta antiterrorista ao nível máximo e determinaram o fechamento de estações ferroviárias e da rede de metrô. Ainda assim, essa contenção não impediu a explosão que atingiu um trem em trânsito na estação Maelbeek, provocando 16 mortes além do suicida, que era irmão de um dos autores do ataque no aeroporto.
Horas depois, o Estado Islâmico reivindicou a ação, justificando-a com o papel belga na coalizão internacional contra o grupo na Irak e na Síria. A reivindicação fez parte de uma narrativa global que buscava dar sentido político ao gesto homicida, transformando violência em mensagem.
Hoje a cidade recorda o 22 de março por meio de memoriais e instalação artísticas. A inscrição luminosa "Forget & Remember" projeta-se todas as noites ao longo do acesso à estação de Maelbeek, onde o mural do artista Benoit Van Innis funciona como ponto de encontro da lembrança coletiva. A transportadora local STIB instalou cartazes comemorativos nas estações, reforçando a presença pública da memória.
No aeroporto de Zaventem, o Memorial "Flight in Mind" receberá amanhã uma cerimônia oficial e a inauguração de uma estela com os nomes das vítimas. Em seguida, ocorrerá a homenagem junto ao Monumento às Vítimas dos Atos de Terrorismo, na Rue de la Loi, com a presença dos reis da Bélgica, do primeiro-ministro Bart De Wever e de autoridades europeias.
Além dos atos institucionais, Bruxelas promove múltiplos momentos de recolhimento: uma nova cadeia humana entre o hotel Sheraton e o terminal do aeroporto, com participação dos bombeiros, equipes de segurança e trabalhadores do espaço aéreo; e um concerto de crianças, aberto à cidade. Passados dez anos, a capital reafirma seu compromisso com uma comunidade aberta e resiliente, sustentando, em termos geopolíticos, os alicerces de uma Europa que resiste a rupturas e redesenha, discretamente, as linhas de sua segurança e solidariedade.
Em termos estratégicos, o episódio permanece como um movimento decisivo no tabuleiro da tensão transnacional — uma lembrança de que a arquitetura da paz exige vigilância contínua, política de inclusão e cooperação entre centros de poder. Bruxelas, neste aniversário, não apenas lamenta; ela demonstra, em gestos e símbolos, a vontade de manter a vida pública e democrática como resposta civilizada à violência.


