Cães e gatos: as vítimas invisíveis da nova tectônica de poder nos conflitos

Cães e gatos são vítimas invisíveis de guerras: abrigos saturados no Golfo e resgates arriscados em Beirute e Ucrânia. Ação de voluntários e medidas nos Emirados.

Cães e gatos: as vítimas invisíveis da nova tectônica de poder nos conflitos

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Cães e gatos: as vítimas invisíveis da nova tectônica de poder nos conflitos

Por Marco Severini — Em meio ao redesenho silencioso das fronteiras de influência e aos choques que marcam a atual tectônica de poder, existem vítimas cuja contabilidade raramente aparece nos relatórios oficiais: os cães e os gatos deixados para trás pelos fluxos humanos de fuga. Abandonados, feridos ou simplesmente perdidos, esses animais domésticos tornaram-se peças deslocadas num tabuleiro de xadrez geopolítico em que famílias em retirada deixam, às pressas, lares e afeição.

Os cenários variam — da periferia sul de Beirute, atingida por ataques aéreos, aos abrigos saturados em Dubai, passando pelas cidades ucranianas devastadas por raids russos — mas a emergência é singular: voluntários e organizações se arriscam para retirar dos escombros e das rotas de exílio centenas, talvez milhares, de animais que não constam nos balanços humanitários convencionais.

No Golfo, entidades de proteção animal alertam que ondas de partidas de civis, motivadas pelo agravamento do confronto entre o Irã e atores regionais, deixaram para trás um contingente significativo de animais domésticos. A RSPCA, a instituição britânica de bem-estar animal, classificou esses casos como "vítimas ocultas" do conflito. Desde 1º de março, cerca de 45 mil cidadãos britânicos teriam saído da região, e esse êxodo acelerado pressiona diretamente os refúgios dos Emirados Árabes Unidos.

Relatos de profissionais que já atuaram em Dubai descrevem um quadro de abrigos lotados: organizações como K9 Friends, Dubai Street Kitties e Six Hounds falam em superlotação, recursos escassos e pedidos incessantes por socorro a cães e gatos feridos ou abandonados. Voluntários contam que chegam a encontrar animais com microchips, claramente queridos por suas famílias, subitamente sem lar. Como medida de mitigação, algumas organizações divulgam informações e contatos práticos para que proprietários possam transportar seus animais durante a saída. A RSPCA lembra, ademais, que existe um acordo entre Reino Unido e Emirados que permite o retorno de animais sem quarentena, facilitando movimentos legais e organizados.

As autoridades dos Emirados reagiram ao aumento de animais errantes com soluções tecnológicas e repressivas: foram instaladas 12 estações de alimentação geridas por sistemas de inteligência artificial e as leis locais sobre abandono de animais preveem sanções severas. Essa combinação de tecnologia e ordem pública revela um esforço estatal para conter as externalidades do êxodo.

No Líbano, o drama se dá sob o rugir das bombas. Na periferia sul de Beirute, atingida por ataques aéreos israelenses, equipes do grupo Animals Lebanon penetram em áreas arrasadas para resgatar cães e gatos presos em residências ou dispersos durante a fuga de seus donos. Movem-se em scooters, com luvas espessas e transportadores de plástico, prontos para abandonar a zona ao menor sinal de novo ataque. Buscam animais feridos, aterrorizados, escondidos entre escombros — uma operação que mescla técnica de resgate e disciplina tática, semelhante a um lance no tabuleiro onde cada retirada deve ser calculada para preservar vidas.

Em Ukraine, as cidades dilaceradas pelos raids russos exibem o mesmo padrão: abrigos sobrecarregados, redes de voluntariado esticadas ao limite e uma necessidade urgente de visibilidade dessas "vítimas invisíveis". A ação das ONGs mantém uma ponte entre compaixão e logística em zonas onde o colapso humanitário reconfigura prioridades e expõe fragilidades dos alicerces da diplomacia e da proteção civil.

Como analista, insisto numa leitura estratégica: o cuidado com animais domésticos durante crises revela, em microescala, o estado de resiliência social de uma comunidade. Proteger cães e gatos é, também, preservar um componente de coesão social que facilita a recuperação pós-conflito. No tabuleiro global, negligenciar essas vidas significa perder um ponto de apoio moral e logístico quando o reagrupamento e a reconstrução se tornarem possíveis.

Enquanto governos, organizações internacionais e doadores reavaliam prioridades, resta aos voluntários — constantes e discretos — o trabalho de resgatar o que a geopolítica deixou para trás: criaturas que, apesar de invisíveis para estatísticas oficiais, carregam memórias, laços e uma urgência ética que não pode ser ignorada.