China demole 'castelo' inspirado em Miyazaki: proprietário afirma ilegalidade e busca reverter decisão
Casa em estilo 'Miyazaki' é demolida na China; proprietário contesta legalidade e busca reverter decisão judicial.
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China demole 'castelo' inspirado em Miyazaki: proprietário afirma ilegalidade e busca reverter decisão
Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha, de forma brusca, um pequeno trecho do tabuleiro territorial, as autoridades chinesas demoliram praticamente por completo uma casa de dez andares que, nos últimos anos, se tornou uma atração singular no sudoeste do país por sua arquitetura que evocava os cenários do cineasta japonês Miyazaki.
A residência, erguida a partir de um modesto bungalow familiar de pedra, foi transformada ao longo de quase oito anos por seu proprietário, o agricultor de 43 anos Chen Tianming. Segundo relatos, ele investiu cerca de 200.000 yuans (aproximadamente 25.000 euros) para converter o imóvel em um labirinto piramidal de escadas instáveis, sacadas e adições improvisadas — configuração que levou mídia e visitantes a comparar o trabalho às paisagens dos filmes 'O Castelo Animado' e 'A Viagem de Chihiro', do Studio Ghibli.
Na manhã da operação, uma equipe de policiais locais e agentes de segurança pública chegou ao local, escoltou Chen e seus pais, apreendeu seu telefone e manteve o proprietário retido em uma repartição governamental até o final do dia. Em poucas horas, a edificação foi reduzida, economizando-se apenas o pavimento térreo original. As autoridades justificaram a ação afirmando que a construção não tinha as permissões exigidas e representava risco estrutural.
Chen declarou não nutrir arrependimentos: 'Não tenho remorsos porque os remorsos são inúteis', afirmou, acrescentando que 'a força que buscava destruí-lo era simplesmente poderosa demais'. Agora, ele procura assistência jurídica para declarar a demolição ilegal e reivindicar a possibilidade de reconstruir sua obra.
O episódio remete a um contexto maior. Em 2018, grande parte da aldeia natal de Chen, em Xingyi, província de Guizhou, foi demolida para dar lugar a um projeto turístico destinado a explorar as impressionantes encostas em terraços e as paisagens montanhosas da região. Chen recusou uma compensação substancial oferecida pelo governo e, mesmo após o fracasso do empreendimento turístico, continuou a erguer andares sobre o bungalow original desafiando ordens de demolição.
Em agosto de 2024, a casa foi oficialmente classificada como construção irregular, com ordem de demolição parcial a ser cumprida em prazo de cinco dias — exceção feita ao núcleo original do bungalow. Após vários recursos administrativos, no dia 18 de maio Chen recebeu um aviso definitivo determinando que deixasse o imóvel até às 9h da manhã da quarta-feira subsequente, antes do início da demolição.
Do ponto de vista estratégico e político, este acontecimento é sintomático da tensão entre projeto estatal de ordenamento territorial e iniciativas individuais que, por vezes, erguem sinais visíveis de resistência no terreno — peças que alteram a tessitura da governança local como se fossem movimentos no tabuleiro. A demolição, além de restabelecer o controle administrativo sobre a paisagem construída, também envia uma mensagem clara sobre os limites tolerados para construções não licenciadas em áreas reclamadas por grandes projetos.
Enquanto busca recursos legais, Chen permanece um ator singular na tectônica de poder regional: seu 'castelo' — que tanto evocava a fantasia cinematográfica quanto representava a obstinação de um proprietário diante de uma máquina administrativa — agora é, em grande parte, ruína. A disputa segue, com implicações que tocam desde direitos de propriedade privados até a administração do desenvolvimento rural num país que equaciona expansão econômica e controle territorial.