Risco de choque alimentar global após fechamento do Estreito de Hormuz, alertam UE e FAO
UE e FAO alertam para risco de choque alimentar global após fechamento do Estreito de Hormuz; medidas urgentes e plano de fertilizantes em debate.
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Risco de choque alimentar global após fechamento do Estreito de Hormuz, alertam UE e FAO
Por Marco Severini — A sequência de tensões que começou com o choque energético provocado pelo fechamento do Estreito de Hormuz abre agora um novo capítulo preocupante: a possibilidade de um choque alimentar de escala global. Em avaliação contida e estratégica, a FAO e a UE soam um alerta que não pode ser ignorado pelos formuladores de políticas e pelos operadores do mercado.
Num podcast divulgado na quarta-feira, a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) advertiu que uma interrupção prolongada do trânsito pelo Estreito de Hormuz pode desencadear uma grave crise dos preços alimentares dentro de seis a doze meses. Segundo a agência, a janela temporal para a adoção de medidas preventivas está se fechando rapidamente.
Para mitigar o impacto, a FAO recomenda quatro linhas de ação claras: estabelecer rotas comerciais alternativas, moderar as restrições às exportações, proteger os fluxos humanitários e constituir reservas estratégicas para absorver o aumento dos custos de transporte. Essas medidas são, em essência, movimentos de reordenação logística — equivalentes a reposicionar peças essenciais no tabuleiro antes que o adversário execute uma jogada irreversível.
Maximo Torero, economista-chefe da FAO, sublinha que as decisões tomadas agora por agricultores e governos sobre o uso de fertilizantes, importações e financiamentos serão determinantes para saber se a crise explodirá ou será contida. "É o momento de pensar seriamente em aumentar a capacidade de absorção dos países e reforçar sua resiliência a esse gargalo", disse Torero.
A Comissão Europeia apresentou nas últimas semanas um "Plano de Fertilizantes" destinado a responder às demandas dos produtores. Contudo, o plano recebeu críticas duras de organizações do setor — Confagricoltura, Coldiretti e Cia qualificaram a proposta como "decepcionante" e insuficiente para a crise atual. Este atrito revela os alicerces frágeis da diplomacia interna entre reguladores e atores agrícolas.
O comissário europeu para a Agricultura, Christophe Hansen, apontou que, embora a dependência direta da Europa em relação às importações do Médio Oriente seja limitada, os fertilizantes são commodities globais. Os preços dos fertilizantes nitrogenados estão cerca de 70% acima da média de 2024 e em níveis significativamente superiores aos anteriores à pandemia; a acessibilidade econômica dos fertilizantes atingiu o ponto mais baixo desde 2022.
Dados do Eurostat mostram que, no quarto trimestre de 2025, o preço médio de fertilizantes e corretivos do solo na UE aumentou 8,0% em relação ao mesmo período de 2024. Em 2025, os preços cresceram por quatro trimestres consecutivos. Os maiores aumentos foram observados na Romênia (+16,8%), Irlanda (+15,3%) e Países Baixos (+12,1%), enquanto quedas foram registradas na Bulgária (-6,1%), Croácia e Lituânia (ambas -0,2%).
Do ponto de vista estratégico, assistimos a um redesenho de fronteiras invisíveis — as rotas comerciais e os custos logísticos passam a definir espaços de influência econômica. Sem respostas coordenadas e rápidas, o risco é que os países mais frágeis sofram primeiro e com maior severidade. A questão colocada à comunidade internacional é clara: mover as peças agora, com prudência e determinação, ou assistir ao colapso de cadeias que sustentam a alimentação global.