Cisjordânia: Israel acelera anexação de fato e controla 18% do território, dizem ONGs
Relatório aponta que assentamentos israelenses controlam 18% da Cisjordânia; mudanças administrativas e expansão aceleram anexação de fato.
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Cisjordânia: Israel acelera anexação de fato e controla 18% do território, dizem ONGs
Por Marco Severini - Espresso Italia
Um relatório conjunto das organizações israelenses Peace Now e Kerem Navot, concluído em maio de 2026 e divulgado nos primeiros dias de julho, revela uma mudança estratégica no controle da Cisjordânia. Segundo o documento, os assentamentos e avamposti dos colonos israelenses consolidaram o domínio sobre cerca de 1.070.000 dunam, equivalentes a aproximadamente 18% do território ocupado — uma área de ordem estratégica que redefine, em termos práticos, o equilíbrio territorial.
O dado, por si só, apresenta um movimento decisivo no tabuleiro: não se trata apenas de expansão pontual, mas de um redesenho incremental das fronteiras de facto. Em 2025, apontam as ONGs, cerca de 300.000 dunam teriam sido acrescidos às áreas controladas pelos assentamentos agrícolas, um ritmo de apropriação territorial que as organizações qualificam como "sem precedentes".
Os relatórios destacam que grande parte desses terrenos não foi formalmente classificada como terra estatal pela Administração Civil israelense. Entre as áreas incorporadas estão propriedades privadas palestinas, terrenos vinculados ao Waqf islâmico e parcelas sem definição cadastral formal — categorias que tornam evidente a complexidade legal e política do processo.
Ao centro dessa dinâmica administrativa e institucional estão mudanças promovidas pelo governo de Benjamin Netanyahu. Especial menção merece o ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, figura do espectro ultranacionalista da coalizão, que assumiu responsabilidades estruturais relacionadas à gestão de competências da Administração Civil nos territórios ocupados. Para as ONGs, essas alterações institucionais aceleraram procedimentos que funcionam, na prática, como formas de anexação progressiva.
O relatório lista ainda fenômenos conectados à expansão dos assentamentos: ampliação de áreas agrícolas coloniais, reassentamento de populações colonas em avanços territoriais, mudanças de registro fundiário e crescente militarização de corredores de acesso. Tudo isso contribui para a erosão dos alicerces da autoridade palestina em vastas regiões da Cisjordânia.
Como analista de relações internacionais, observo aqui uma tectônica de poder com efeitos duradouros. A conquista gradual de espaço territorial por meios administrativos e populacionais configura uma estratégia de anexação por etapas — um movimento que, embora não formalize fronteiras através de legislação internacional ou tratados, cria uma nova realidade de fato no terreno.
Esse processo tem implicações diplomáticas profundas. A comunidade internacional enfrenta um dilema clássico de Realpolitik: contestar vigorosamente essas manobras, com risco de isolamento político de atores-chave, ou aceitar, tacitamente, o avanço dos assentamentos em troca da manutenção de canais diplomáticos e de segurança. A resposta determinará se os atuais ganhos territoriais permanecerão como ganhos efêmeros ou se consolidarão em novos parâmetros de soberania.
Por fim, é essencial sublinhar que a situação não é apenas territorial, mas civilizacional: a alteração do mapa humano e jurídico da Cisjordânia reconfigura vidas, identidades e direitos. Em termos estratégicos, estamos diante de um movimento que, em linguagem de xadrez, busca transformar posições temporárias em estruturas permanentes — uma jogada paciente e metódica cujo resultado ainda será disputado nas arenas diplomáticas e judiciais.