Colômbia: queda de Hércules militar deixa 69 mortos e acirra disputa política sobre avião doado pelos EUA
Queda de avião militar C-130 Hércules na Colômbia deixa 69 mortos; disputa entre Petro e Duque sobre avião doado pelos EUA e falhas de infraestrutura.
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Colômbia: queda de Hércules militar deixa 69 mortos e acirra disputa política sobre avião doado pelos EUA
Por Marco Severini — Um dos episódios aéreos mais trágicos dos últimos anos na Colômbia desenhou-se como um movimento brusco no tabuleiro da segurança e da política nacional. Um avião militar C-130 Hercules, de fabricação estadunidense, caiu pouco após a decolagem de Puerto Leguízamo, região limítrofe com Peru e Equador, com 125 pessoas a bordo. Segundo balanço oficial atualizado, ao menos 69 mortos foram confirmados, entre eles 58 militares, seis integrantes da Força Aérea e dois agentes de polícia; dezenas permanecem feridos.
As causas do acidente ainda são investigadas. O Governo descartou, por ora, a hipótese de ataque por grupos guerrilheiros que atuam na área — território conhecido pela produção de coca — concentrando as apurações em fatores técnicos e operacionais. O episódio reativou uma disputa política de alto risco: o presidente Gustavo Petro responsabilizou publicamente o seu antecessor, Iván Duque, por ter aceitado, segundo ele, um avião “sucata” doado pelos Estados Unidos.
Em tom veemente, Petro questionou nas redes por que as Forças Armadas receberam um aparelho com mais de quatro décadas de serviço ativo e afirmou que os custos de manutenção chegam a exceder os de uma aeronave nova. O presidente afirmou ter solicitado a substituição do C-130 há um ano. A acusação configurou um ataque direto às escolhas de política de material bélico feitas pelo Governo anterior, transformando a investigação técnica em um movimento de grande repercussão política.
O ex-presidente Duque revidou com igual dureza, classificando Petro como “vil” e “incompetente”, e exigiu que a apuração inclua aspectos concretos do voo: o peso do avião no momento da decolagem e as condições da pista do pequeno aeroporto regional. O Ministério da Defesa confirmou que uma investigação abrangente está em curso e ressaltou que, até o momento, não há indícios de ação hostil externa.
Jhon Molina, governador do departamento de Putumayo, informou que o aeroporto de Puerto Leguízamo apresenta «diversos problemas» de infraestrutura e necessita de investimentos urgentes. O local do acidente é de difícil acesso: chega‑se apenas por via aérea ou por uma viagem de barco de cinco horas a partir de Puerto Asís, capital departamental. Essa cartografia de isolamento influenciou decisivamente a dinâmica dos socorros.
Testemunhos e imagens que se espalharam nas redes sociais mostraram moradores formando cadeias humanas para passar água e voluntários transportando feridos em motocicletas — gestos que, segundo autoridades locais, evitaram que o número de vítimas fosse ainda maior. Os corpos serão trasladados para Bogotá para exames forenses pelo Instituto Nacional de Medicina Legal.
Do ponto de vista estratégico, o episódio expõe alicerces frágeis da diplomacia material: aparelhos militares doados ou adquiridos em contextos internacionais traduzem-se, no terreno, em decisões de logística, manutenção e risco humano. Este acidente impõe um redesenho urgente das prioridades — não apenas técnicas, mas do desenho institucional que regula a modernização das forças armadas —, sob o olhar atento da opinião pública e da comunidade internacional.
Enquanto as investigações prosseguem, a tensão política entre palácios e quartéis evidencia que a tectônica de poder doméstica pode alterar o curso de uma apuração técnica. Em termos estratégicos, é um movimento decisivo no tabuleiro: a resposta institucional nas próximas semanas definirá se se trata de um trágico acidente operacional ou de um ponto de inflexão nas políticas de defesa da Colômbia.