Congresso dos EUA apresenta resolução para reconhecer a Nakba e o direito de retorno palestino
Congresso dos EUA apresenta resolução para reconhecer a Nakba e afirmar o direito de retorno dos palestinos, numa reconfiguração diplomática relevante.
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Congresso dos EUA apresenta resolução para reconhecer a Nakba e o direito de retorno palestino
Marco Severini — Em 15 de maio de 2026, um movimento político interno nos Estados Unidos marcou um deslocamento significativo no tabuleiro diplomático: um grupo de cerca de vinte parlamentares, apoiado por mais de 150 organizações progressistas, árabes e judaicas, apresentou à Câmara dos Representantes uma resolução que solicita o reconhecimento oficial da Nakba palestina e a afirmação do direito de retorno dos refugiados.
O texto da resolução descreve a Nakba — literalmente “catástrofe” em árabe — como o processo de limpeza étnica e deslocamento em massa sofrido pelos palestinos entre 1947 e 1949, quando mais de 700 mil pessoas foram expulsas e centenas de aldeias foram destruídas ou esvaziadas durante a criação do Estado de Israel. Mais além do reconhecimento histórico, o documento sustenta que a Nakba "não terminou": estabelece um fio condutor entre os acontecimentos de 1948 e a situação contemporânea nos territórios palestinos, incluindo o que qualifica como um genocídio na Faixa de Gaza.
Como principal promotora da iniciativa, a deputada Rashida Tlaib acusou o governo israelense de manter políticas contínuas de expulsão e ocupação e de conduzir ações que visam "apagar os palestinos do mapa". Em seu pronunciamento, Tlaib vinculou a narrativa histórica do deslocamento ao que define como uma campanha contemporânea de violência em Gaza, às contínuas violações na Cisjordânia e às repercussões regionais, incluindo tensões com o Líbano devido a presenças militares e operações transfronteiriças.
A resolução também dirige críticas ao papel dos Estados Unidos, questionando o apoio militar e diplomático que, segundo os proponentes, tem permitido a continuidade de políticas que alimentam expulsão e ocupação. Trata-se, nas palavras dos autores, de uma tentativa de reposicionar a memória histórica na agenda legislativa americana e de afirmar que uma paz sustentável exige o reconhecimento dos direitos dos refugiados e a implementação do direito de retorno.
Do ponto de vista estratégico, este movimento no Congresso dos EUA é mais do que um ato simbólico: representa um reajuste nas peças que compõem a tectônica de poder em torno do conflito israelo-palestino. Em termos de diplomacia e política externa, a resolução procura construir alicerces normativos que desafiam narrativas consolidadas e podem abrir novas frentes de debate sobre a condicionalidade do apoio norte-americano a aliados no Médio Oriente.
É prematuro afirmar que a proposta terá sucesso parlamentar; contudo, seu aparecimento reflete uma mudança de correlação de forças no interior de Washington e uma crescente pressão de movimentos cívicos e comunitários. Como num lance calculado sobre um tabuleiro de xadrez, a iniciativa tenta redesenhar fronteiras políticas invisíveis e forçar interlocutores a reconsiderar posições consideradas até então imutáveis.
Segue-se agora a tramitação legislativa e o debate público, cuja condução exigirá precisão histórica, sensibilidade diplomática e uma avaliação realista das consequências estratégicas para a estabilidade regional.