Crans-Montana: vice-responsável admite que controles antincêndio em bares não eram prioridade; falta de pessoal e recursos agrava tragédia
Vice-responsável de Crans-Montana admite que controles antincêndio em bares não eram prioridade; falta de pessoal e recursos é apontada após incêndio que matou 41.
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Crans-Montana: vice-responsável admite que controles antincêndio em bares não eram prioridade; falta de pessoal e recursos agrava tragédia
Por Marco Severini — Em um depoimento que redesenha, com frieza estratégica, os contornos administrativos que antecederam a tragédia, o vice-responsável municipal pela segurança de Crans-Montana, Benjamin Charpiot, reconheceu perante os investigadores, em 12 de maio de 2026 no campus Energypolis, em Sion, que a administração local convivia com um acúmulo de falhas na programação de inspeções e com uma clara «falta de pessoas e recursos».
O incêndio no clube subterrâneo Le Constellation, ocorrido na noite de 1º de janeiro de 2026, quando fontes pirotécnicas de efeito luminar sobre garrafas inflamaram os painéis fonoabsorventes do teto, resultou em 41 mortos e 115 feridos. O balanço humano e institucional — uma tectônica de poder deslocada — agora toma forma em processos e responsabilizações que alcançam o próprio município.
Segundo Charpiot, os controles antincêndio de estabelecimentos como bares e restaurantes não estavam entre as prioridades do calendário municipal: à frente na lista figuravam hospitais e clínicas, seguidos, em ordem descendente, por residências privadas e hotéis. Para a lei suíça, inspeções deveriam ocorrer anualmente; na prática, admitiu o responsável, havia um «problema de atraso nos controlos periódicos» — expressão utilizada durante o interrogatório.
O caso se agrava: o número de indiciados subiu para 13, todos formalmente investigados por omício culposo (homicídio culposo), lesões corporais por negligência e incêndio por negligência. Entre os nomes citados no inquérito, além de Charpiot, estão Patrick Clivaz — atual conselheiro comunal e chefe político do Serviço de Segurança Pública de Crans-Montana —, Jean-Claude Savoy, último prefeito de Chermignon, e Jérémie Rey, ex-conselheiro com delegação para segurança das construções no mesmo município entre 2013 e 2016.
As declarações do vice-responsável delineiam uma administração que, por restrições de meios e escolhas de prioridade, deixou pontos vulneráveis no chamado «tabuleiro» local. Na mesma fileira de apurações, surgiram críticas severas à Organização Cantonal de Socorro: famílias das vítimas, com representação jurídica italiana, denunciaram falhas no triagem e ausência de equipamentos básicos (macas, cobertores térmicos, cilindros de oxigênio) para o atendimento de emergência.
Fabrizio Ventimiglia, advogado de uma das famílias, sintetizou a acusação técnica: «A programação dos controlos era fortemente deficiente», afirmou, apontando não apenas omissões pontuais, mas um padrão administrativo que deixou frágeis os alicerces da prevenção.
Entre maio e junho estão previstos novos interrogatórios — quatro depoimentos adicionais segundo informações preliminares — e a investigação segue aprofundando as responsabilidades institucionais. Em jogo não está apenas a identificação de falhas técnicas, mas a reconstrução das prioridades públicas que, num momento crítico, atuaram como escolhas estratégicas no interior do poder local.
Como analista, observo que este episódio expõe um problema estrutural: quando o calendário de segurança é redesenhado por falta de recursos, as fronteiras invisíveis da proteção pública se deslocam, e o peso do risco concentra-se sobre espaços socialmente vulneráveis. A tragédia de Crans-Montana é, portanto, tanto um colapso operacional quanto uma lição de Realpolitik administrativa — um movimento decisivo no tabuleiro que revelou as fragilidades de uma governança despreparada para emergências de alta letalidade.
O caso seguirá nos tribunais e nas investigações técnicas. A sociedade exige respostas e uma reordenação das prioridades de segurança; o Estado, exigido a restaurar confiança, terá de redesenhar seus procedimentos para que os episódios de falha não se repitam.