Cuba às escuras: por que o retorno da eletricidade não encerra a crise energética
Apesar do restabelecimento, Cuba segue com apagões por centrais obsoletas e bloqueio de combustíveis, afetando 62% do país e gerando protestos.
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Cuba às escuras: por que o retorno da eletricidade não encerra a crise energética
Por Marco Severini — A ilha oficialmente vê a eletricidade retornar, mas a realidade permanece sombria: Cuba vive, na prática, à mercê de apagões recorrentes. Em menos de um ano e meio, os 10 milhões de habitantes enfrentaram o sexto grande blackout, uma repetição que revela a fraqueza estrutural do sistema elétrico e a complexa tectônica de poder que hoje envolve a ilha.
Num movimento que parece parte de um tabuleiro de xadrez diplomático, o episódio ocorre enquanto Havana disputa com os EUA pontos de influência e negociações que, segundo fontes do New York Times, incluem exigências sobre a saída do presidente Díaz-Canel. As tensões externas agravam as vulnerabilidades internas: ainda que as autoridades anunciem o restabelecimento gradual das fornecimentos, trata-se de uma normalidade aparente.

Dados oficiais apontam que as operações controladas deixaram simultaneamente cerca de 62% do país sem energia. O apagão mais recente durou "29 horas e meia", mas os efeitos subsequentes — cortes por bloqueio de circuitos, perdas econômicas e restrições ao abastecimento — persistem.
Antes do último colapso, a situação já era crítica: em Havana chegava-se a ficar até 15 horas por dia sem luz; em algumas províncias registraram-se até 48 horas seguidas de interrupção. A anatomia dessa crise é dupla: por um lado, um parque gerador profundamente obsoleto; por outro, a escassez de combustível resultante do bloqueio petrolífero imposto pelos Estados Unidos desde janeiro.
As centrais termoelétricas da ilha — muitas construídas nas décadas de 1960 e 1970 — acumulam um déficit crônico de investimentos e manutenção. Falhas mecânicas tornaram-se rotina. Aproximadamente 40% da energia até então vinha de geradores movidos a diesel e óleo combustível; esse fornecimento praticamente secou com as restrições às importações iniciadas no começo do ano.
Especialistas consultados estimam que seriam necessários entre 8 e 10 bilhões de dólares para recuperar o sistema elétrico em bases sólidas — montante que a Avana não dispõe, sobretudo em face da contração econômica que já fez o produto interno cair mais de 15% desde 2020.
Os apagões não são apenas estatística: pesam sobre a atividade econômica, afetam serviços essenciais e alimentam descontentamento social. Nos últimos dias houve demonstrações em Havana e em Morón; nesta última cidade cinco pessoas foram detidas após os protestos.
Do ponto de vista estratégico, trata-se de um problema com múltiplas frentes: infraestrutura envelhecida, ausência de investimentos, e sanções que cortam insumos críticos. No grande tabuleiro internacional, o apagão é também um movimento capaz de redesenhar fronteiras invisíveis de influência, pressionando decisões políticas e acelerando negociações que antes avançavam com parcimônia.
Qualquer solução estrutural exigirá tempo, capital e vontade política — três recursos escassos na atual conjuntura. Enquanto isso, a ilha segue às escuras em muitos momentos do dia, um lembrete claro de que, na arquitetura da estabilidade, os alicerces energéticos são igualmente fundamentais aos muros e tratados.


