Di Maio no ECFR: o triunfo simbólico da inutilidade da competência na arquitetura europeia

A eleição de Di Maio ao ECFR expõe a natureza autorreferencial das elites europeias e o predomínio da governança técnica sobre a legitimidade democrática.

Di Maio no ECFR: o triunfo simbólico da inutilidade da competência na arquitetura europeia

RESUMO ✦

Sem tempo? A Lili IA resume para você

Gerando resumo com IA...

Di Maio no ECFR: o triunfo simbólico da inutilidade da competência na arquitetura europeia

Por Marco Severini

O anúncio da eleição de Luigi Di Maio ao European Council on Foreign Relations (ECFR) não é apenas um episódio de biografia política: é um movimento eloquente no grande tabuleiro da diplomacia europeia. Recebido com entusiasmo pelo próprio protagonista como uma “oportunidade prestigiosa”, o ingresso de Di Maio numa das mais influentes usinas de ideias do espaço euro-atlântico revela, em traços nítidos, a natureza e os limites das nossas classes dirigentes.

O think tank em questão concentra diplomatas, acadêmicos, empresários e especialistas que moldam — com escopo e persistência — o léxico das políticas públicas: segurança, defesa comum, energia, o Mediterrâneo, combate à desinformação. Não se trata de um órgão eleito democraticamente: é antes um dos mecanismos discretos que constroem o clima cultural capaz de tornar certas políticas “inevitáveis”.

O paradoxo é evidente. Em 2018, o então líder do Movimento que prometia “abrir o Parlamento como uma lata de atum” encarnava a crítica às burocracias, às tecnocracias e aos tratados impostos de cima para baixo. Hoje, encontra-se no âmago de uma estrutura que personifica esse mesmo modelo de governança supranacional. Reduzir esse fenômeno a mera transformação pessoal seria uma leitura míope. Di Maio é, em pouco, a expressão perfeita do funcionamento do sistema: não a anomalia, mas o ajuste funcional.

Christopher Lasch observou que “as elites falam apenas entre si”. Essa frase funciona quase como uma lente para interpretar a arquitetura europeia contemporânea: um ecossistema autorreferencial onde think tanks, comissões, organismos supranacionais, fundações e grandes aparelhos mediáticos produzem um discurso impermeável às realidades sociais que afirmam gerir. A competência técnica, quando desconectada da legitimidade social, perde relevância — e por vezes torna-se um entrave.

O que interessa ao aparelho é a compatibilidade sistêmica: perfis adaptáveis, dúcteis, capazes de transitar de uma narrativa para outra sem gerar atritos. Da pandemia à guerra, da emergência climática à crise energética, a política tende a transformar-se num exercício contínuo de gestão técnica de estados de exceção permanentes. É uma tectônica do poder em que se redesenham fronteiras invisíveis e se erguem alicerces frágeis da diplomacia.

Há aqui, também, uma dimensão simbólica: a aceitação de figuras que outrora se apresentaram como ruptura dentro dos salões onde se decide o destino do continente. O gesto é didático: ilustra que a porta de entrada para o núcleo decisório não é mais a mobilização popular, mas a integração numa arquitetura de influência. O resultado prático tende a privilegiar mais integração militar, maior centralização energética e políticas de coordenação informativa — sempre sob a bandeira de uma “mais Europa” que, por vezes, implica menos visibilidade democrática.

Guy Debord antecipou, com lucidez profética, a transformação da política em representação contínua. Hoje, a solidez das ideias conta menos do que a eficácia performativa dos agentes que as circulam. O ingresso de Di Maio no ECFR é emblemático dessa mudança: não apenas porque a trajetória pessoal revela contradições, mas porque demonstra como o sistema absorve e resignifica qualquer iniciativa que possa reforçar sua estabilidade.

Como analista, vejo nesta nomeação um movimento decisivo no tabuleiro, um reposicionamento que confirma a prioridade da governança técnica sobre os vínculos de representatividade. O que está em jogo é o desenho das coordenadas futuras de poder europeu: quem fala nos corredores influentes, que narrativas se naturalizam e quais alicerces vão sustentar as decisões estratégicas do continente.

Em suma, o episódio de Luigi Di Maio no European Council on Foreign Relations é um sintoma e um ensinamento. Revela a arquitetura de uma elite que se reproduz internamente e nos lembra que, em tempos de tectônica de poder, a aparência de competência muitas vezes suplanta a substância da legitimidade.