Mette Frederiksen encarregada das consultas para formar governo na Dinamarca em cenário fragmentado
Mette Frederiksen conduz consultas na Dinamarca para formar governo após eleições fragmentadas; Moderados de Løkke Rasmussen são o fiel da balança.
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Mette Frederiksen encarregada das consultas para formar governo na Dinamarca em cenário fragmentado
Por Marco Severini — A corte real da Dinamarca comunicou que a primeira‑ministra demissionária Mette Frederiksen foi formalmente encarregada de conduzir as negociações com todos os partidos representados no parlamento, após as eleições legislativas que deixaram os socialdemocratas à frente, porém sem maioria clara. O despacho do rei, que ouviu os onze grupos eleitos, confere a Frederiksen a missão de tentar costurar uma maioria parlamentar.
No estágio inicial, a mandatária tentará formar uma coalizão à esquerda juntando o SF (Partido Socialista Popular) e o De Radikale, de centro‑esquerda, segundo a nota do Palácio. O bloco de esquerda — que agrega cinco partidos, inclusive os socialdemocratas — somou 84 assentos, ante 77 da direita e da extrema‑direita. O partido Moderado, liderado pelo veterano ministro das Relações Exteriores Lars Løkke Rasmussen, conquistou 14 assentos e assume a posição de pêndulo que pode inclinar o equilíbrio.
Os socialdemocratas mantêm‑se como a legenda mais numerosa, com 38 cadeiras entre 179, apesar de registrar seu pior desempenho desde 1903. Nos últimos quatro anos, o partido liderou uma coalizão de caráter híbrido — uma configuração direita‑esquerda que, na avaliação dos eleitores, terminou por desgastar o apoio liberal ao governo.
“O mais provável é que Mette Frederiksen permaneça como primeira‑ministra”, observa Rune Stubager, professor de Ciência Política da Universidade de Aarhus, mas ressalva a incerteza sobre se Lars Løkke Rasmussen tentará disputar diretamente o cargo, hipótese que o próprio nega.
Frederiksen apresentou sua renúncia ao rei na manhã seguinte à votação. A manchete do diário Politiken sintetizou a leitura dominante: uma eleição caótica que deixou muitos derrotados, poucos satisfeitos e um claro beneficiário — Lars Løkke Rasmussen. Analistas recordam que o veterano político, duas vezes primeiro‑ministro no passado, pode tanto orientar a formação de uma maioria à direita como procurar consolidar uma alternativa centrada ao seu redor.
Os partidos preparam‑se, portanto, para semanas de conversas complexas. O precedente de 2022 mostrou que os acordos podem demandar quase seis semanas de negociação. Enquanto isso, como lembra um eleitor comum, a atividade legislativa tende a ficar aquém do necessário: a ausência de um governo plenamente constituído compromete a aprovação de novas leis.
Com doze forças parlamentares, o panorama político chama‑se fragmentado, mas a Dinamarca tem tradição de minorias governativas e de maiorias móveis: “Em certo sentido, a política dinamarquesa funciona assim: existe um governo de minoria no centro que forma maiorias de ocasião ora com a esquerda, ora com a direita”, explica Stubager. No tabuleiro institucional, trata‑se de alinhar, peça por peça, convergências sobre os temas mais sensíveis.
Os pontos que deverão dominar as negociações são a economia e as pensões, o enfrentamento do inquinamento (poluição), as políticas de imigração e medidas ambientais. A tectônica de poder entre centros, esquerda e direita tornará cada concessão cara: os alicerces da futura coalizão serão testados desde a primeira oferta programática.
Do ponto de vista estratégico, o processo demonstra como democracias parlamentares nordicas combinam estabilidade institucional com uma capacidade sofisticada de negociação multipartidária; o desafio agora é traduzir a aritmética dos assentos em governabilidade sem fragilizar os pilares do consenso nacional.