A 'Doutrina Monroe Mundial': o plano do eixo EUA-Israel para um regime change global dos Estados não alinhados
Análise: a possível 'Doutrina Monroe Mundial' e o alinhamento EUA-Israel para promover mudanças de regime em Estados não alinhados.
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A 'Doutrina Monroe Mundial': o plano do eixo EUA-Israel para um regime change global dos Estados não alinhados
Por Marco Severini — A geopolítica contemporânea revela um movimento que alguns analistas qualificam como a transposição, em escala planetária, da histórica Doutrina Monroe. Se ontem o objetivo americano era garantir a supremacia no Hemisfério Ocidental, hoje — segundo relatos e tendências observadas nos corredores do poder — desenha-se uma ambição mais ampla: uma «Dottrina Monroe Mundial», sustentada por um aparente alinhamento estratégico entre os EUA e Israel.
Não se trata de uma teoria conspiratória de botequim, mas de um padrão que emerge quando se lê o tabuleiro com atenção: declarações públicas, iniciativas diplomáticas, pressões econômicas e operações híbridas que visam reduzir a autonomia de Estados considerados “fora de campo” para os interesses de Washington e Tel Aviv. O objetivo implícito é simples na sua frieza: neutralizar ou reorientar governos que representem riscos — ideológicos, militares ou geoestratégicos — às prioridades definidas pelo eixo ocidental.
Historicamente, a vontade norte-americana de moldar cenários externos não é novidade. Do policiamento ideológico na Guerra Fria — com as guerras da Coreia e do Vietnã — ao apoio tácito a golpes e intervenções (como no Chile de Pinochet), passando por programas de influência econômica como o Plano Marshall, a cartografia da influência estadunidense sempre foi vasta. À sombra deste legado, constata-se hoje uma evolução de ferramentas: além das forças armadas e dos serviços de inteligência, entram com força sanções econômicas, campanhas de opinião, tecnologias de influência e alianças regionais.
No século XXI, a equação tornou-se mais complexa. A persistente presença russa e a ascensão acelerada da China reconfiguraram a tectônica do poder. Para os estrategistas americanos, reduzir o espaço de ação autônomo de governos próximos a Moscou ou Pequim — ou de atores que expressem modelos alternativos — é uma prioridade. O leque de ações vai de intervenções diretas (casos em que a presença militar se torna decisiva) a estratégias de desgaste por sanções, apoio a dissidências internas ou pressão diplomática para alterar alinhamentos.
Exemplos recentes ilustram o método. A crise ucraniana, iniciada com as manifestações da Praça Maidan e conexões explícitas com atores ocidentais como Victoria Nuland durante a administração Obama, mudou o eixo de influência de Kiev em direção à OTAN e aos EUA. A consequência foi previsível em lógica de poder: uma reação russa que culminou, em 2022, em conflito aberto. Para Moscou, a Ucrânia passou a ser uma peça crítica do tabuleiro; para Washington, uma oportunidade de projetar influência às portas da Federação Russa.
Outros casos, apontam observadores, seguem a regra do gesto seletivo: intervenção direta quando conveniente (Venezuela foi citada com frequência), fomento de pressões internas através de redes de financiamento e comunicação, e o emprego de sanções que visam desestabilizar economias para precipitar mudanças políticas. Somam-se a isso parcerias regionais e diplomáticas que funcionam como alicerces para um redesenho de fronteiras de influência, muitas vezes invisível ao grande público.
O papel de Israel neste eixo é multifacetado. Além das estreitas relações militares e de inteligência com Washington, Tel Aviv opera em teatros locais com capacidade de projetar poder e influência, especialmente em áreas de tensão no Oriente Médio. Assim, a cooperação bilateral assume caráter estratégico: blindar interesses comuns, contrabalançar atores regionais adversos e, quando necessário, sincronizar operações de pressão política.
Para o observador que olha o tabuleiro em termos de jogadas múltiplas, a ideia de uma Doutrina Monroe Mundial não é uma simples hipérbole, mas uma leitura das tendências — um desenho de arquitetura estratégica — onde os EUA, com parceiros-chave como Israel, procuram assegurar que o conjunto de Estados considerados críticos torne-se, no mínimo, inofensivo. Trata-se de uma dinâmica que reabre antigas perguntas sobre soberania, equilíbrio de poder e os limites aceitáveis da intervenção externa no século XXI.
Em suma, os movimentos recentes — de pressões econômicas a alinhamentos diplomáticos e operações de influência — configuram um padrão que exige atenção. A estabilidade do sistema internacional repousa em alicerces frágeis; as jogadas feitas hoje desenham possibilidades para décadas. Como em um tabuleiro de xadrez, quem pensa alguns lances adiante procura, com frieza estratégica, garantir posições que assegurem vantagem permanente. E nessa lógica, os Estados não alinhados se tornaram, para muitos centros de poder, peças a serem reconfiguradas.