Escândalo dos fundos da UE na Grécia: Mitsotakis promove remanejamento para preservar governo

Mitsotakis realiza remanejamento ministerial após investigação da EPPO sobre desvio de fundos da PAC; 14 investigados e pressão por eleições.

Escândalo dos fundos da UE na Grécia: Mitsotakis promove remanejamento para preservar governo

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Escândalo dos fundos da UE na Grécia: Mitsotakis promove remanejamento para preservar governo

Por Marco Severini — Em um movimento que pode ser lido como um lance defensivo num tabuleiro de grande risco, o primeiro‑ministro grego Mitsotakis ordenou um profundo remanejamento do seu executivo para tentar estancar o desgaste provocado por um escândalo que alcança dimensões europeias. A decisão surge após a Procuradoria Europeia (EPPO) ter colocado sob investigação quatorze quadros de Nea Dimokratia, acusados de desviar recursos destinados à Política Agrícola Comum (PAC).

Nos últimos dias, três figuras ministeriais de peso recuaram: o Ministro da Agricultura, o Ministro da Proteção Civil e o Vice‑ministro da Saúde deixaram os cargos, todos implicados em graus variados na apuração. Para blindar o ministério mais exposto — o da Agricultura — Mitsotakis recorreu a uma peça de garantia de relacionamento com Bruxelas, nomeando Margaritis Schinas, ex‑vice‑presidente da Comissão Europeia, numa tentativa de recompor os alicerces frágeis da diplomacia entre Atenas e instituições comunitárias.

A crise escalou quando, há cerca de 48 horas, a EPPO encaminhou ao Parlamento grego os dossiês e formalmente pediu a revogação da imunidade de 11 deputados da maioria. As acusações apontam para crimes graves: fraude informática, declarações falsas e instigação ao descumprimento de deveres oficiais, fatos que remontam a 2021. Este será o primeiro teste real de coesão parlamentar para o governo de Mitsotakis.

No cerne da investigação está a fraude conhecida como das "pastagens fantasmas": centenas de cidadãos teriam obtido subsídios ilegítimos alegando atividade agrícola e pastagens inexistentes. Segundo as reconstruções, o esquema foi facilitado por funcionários desleais da Opekepe, agência estatal responsável pela distribuição dos fundos — órgão que o premier já havia prometido desmontar no último junho como parte de um esforço para romper com a corrupção endêmica. Estima‑se, até o momento, que pelo menos 23 milhões de euros tenham sido desviados indevidamente para bolsos privados e políticos.

Politicamente, o horizonte é incerto. O porta‑voz do governo, Pavlos Marinakis, excluiu eleições antecipadas — previstas apenas para a primavera de 2027 — mas a pressão das forças de oposição cresce. O PASOK acusa que "a corrupção se aninha dentro de Nea Dimokratia", enquanto o Syriza exige eleições imediatas.

Reaparece no tabuleiro uma figura com potencial de redefinir linhas: Alexis Tsipras anunciou a criação de um novo projeto político até setembro, com possibilidade de antecipação caso a crise se agrave. Nos próximos dias, o voto parlamentar sobre a retirada de imunidade dos deputados indiciados funcionará como um termômetro: a tectônica de poder em Atenas poderá redesenhar fronteiras invisíveis entre instituições e partidos.

Em suma, o remanejamento é um movimento defensivo, calculado para preservar a governabilidade, mas que não elimina a exposição institucional. A Europa observa; as peças no tabuleiro grego continuam a se mover — e cada lance definirá o equilíbrio de influência entre Atenas e Bruxelas.