EUA como os romanos: Irã usa história antiga na guerra de propaganda

Irã compara EUA aos romanos em campanha de propaganda, evocando Filipo e Sapor I para moldar narrativa nas negociações mediadas pelo Paquistão.

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EUA como os romanos: Irã usa história antiga na guerra de propaganda

Por Marco Severini — Em meio às negociações mediadas pelo Paquistão, a disputa contemporânea entre EUA e Irã ganhou um tom histórico e propositalmente simbólico. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores iraniano, Ismail Baghaei, evocou nas redes sociais um paralelo entre o imperialismo romano e a atuação norte-americana, afirmando que "os romanos acreditavam que Roma era o centro do mundo, mas os persas romperam essa ilusão".

Baghaei retomou um episódio do século III d.C. como metáfora de um movimento estratégico: a campanha de Filipo, o Árabe, contra os sassânidas, que terminou com uma paz ditada por Sapor I em 244 d.C. A derrota romana e a morte do imperador Gordiano III na batalha de Mesiche — nas imediações da atual Bagdá — forçaram Filipo a negociar termos desfavoráveis para poder regressar e consolidar seu poder. Entre as concessões, o pagamento de resgates e a renúncia à maior parte da Armênia, ainda que Roma tenha preservado Mesopotâmia e a Armênia Menor. O tratado foi celebrado por Roma até nas moedas cunhadas com a inscrição 'Pax fundata cum Persis'.

Na retórica iraniana, esse episódio funciona como um argumento de legitimidade e resistência: lembra que potências estabelecidas já foram compelidas a reconhecer limites impostos por vizinhos com projeção regional. A referência histórica também recorda outras derrotas romanas contra impérios de origem iraniana — como a captura do imperador Valeriano após Edessa, em 260 d.C. — e as sucessivas fricções que marcaram as fronteiras entre Roma e os reinos persas, do tempo dos partos aos sassânidas.

Do ponto de vista geopolítico, a escolha dessa narrativa não é casual. Ao utilizar analogias de glórias e humilhações antigas, o Irã tenta redesenhar no imaginário público regional e global um eixo de interpretação onde a perseverança e a profundidade histórica transformam-se em capital simbólico. É uma manobra clássica no tabuleiro da propaganda: reposicionar o adversário como um império sobreestimado e a si mesmo como guardião de uma continuidade civilizacional.

Historicamente, Roma e os reinos iranianos se enfrentaram repetidas vezes — desde as campanhas de Sila, a extensão da república até o Eufrates e a função amortecedora da Armênia, até a humilhação de Crasso em Carras (53 a.C.) e as campanhas de Trajano, Lúcio Vero, Septímio Severo e Caracala, com sucessos variados. Mesmo após a queda do Império Romano do Ocidente, as dinâmicas continuaram até a chegada dos califados islâmicos, que encerraram a era sassânida.

Como analista, enxergo essa operação retórica iraniana como um movimento calculado: um lance de xadrez que visa não apenas impressionar plateias domésticas, mas também influenciar interlocutores internacionais e delegar ao tempo histórico a validade moral de sua posição. Em suma, a alusão aos romanos e aos persas é simultaneamente evocativa e instrumental, um lembrete de que, na tectônica de poder, simbolismos bem trabalhados podem redesenhar fronteiras invisíveis tão eficazmente quanto uma diplomacia bem conduzida.