Descoberta extraordinária: filme perdido de Georges Méliès aparece em velho baú familiar
Filme perdido de Georges Méliès, 'Gugusse et l'automate' (1897), é redescoberto em baú familiar e entregue à Library of Congress.
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Descoberta extraordinária: filme perdido de Georges Méliès aparece em velho baú familiar
Por Marco Severini — Em um movimento que reconfigura, por um instante, a cartografia da história do cinema, um filme perdido de Georges Méliès foi recuperado dentro de um antigo baú de madeira que atravessou gerações na mesma família norte-americana. O achado ocorreu quando o aposentado e professor Bill McFarland, pronipote de um proiezionista rural da Pensilvânia, decidiu entregar uma dezena de bobinas frágeis aos cuidados do National Audio-Visual Conservation Center da Library of Congress, em Culpeper, Virgínia.
Entre as bobinas entregue em setembro estava uma peça curta, de apenas 45 segundos, datada de 1897 e identificada como Gugusse et l'automate. Trata-se, muito provavelmente, de uma cópia de terceira geração — prática comum na época e consequência da ampla circulação e contrafação das obras de Méliès, que figurou entre os primeiros cineastas a enfrentar a chamada pirataria cinematográfica.
A descoberta não foi óbvia. As películas em nitrato são altamente inflamáveis e até potencialmente explosivas; por isso um antiquário havia recusado a compra. McFarland, cujo bisavô William DeLyle Frisbee nasceu em 1860 na Pensilvânia e trabalhou como proiezionista, preferiu levar o material aos arquivistas especializados, numa decisão que preservou fragmentos do arquivo visual do início do cinema.
O contexto histórico é essencial para avaliar a importância do achado. Filmado apenas dois anos após a primeira projeção pública dos irmãos Lumière, momento em que o próprio Méliès esteve presente, o curta insere-se nos alicerces frágeis da técnica cinematográfica: experimentos de ilusionismo aplicados à montagem, ao corte e ao efeito visual. Cinco anos depois, Méliès assinaria o seminal Viagem à Lua, e sua produção seguiria até cerca de 1913, quando o esquecimento e a mudança de eixo industrial — do Velho Mundo para os Estados Unidos — reduziram sua visibilidade pública.
Na sequência recuperada, Méliès interpreta um mágico que dá corda a um autômato; a figura cresce até acertá‑lo com um bastão. O mago, por sua vez, parte para golpes de martelo, a máquina diminui e, por meio de um truque de montagem, desaparece. "As enquadraturas são de uma precisão notável para um filme tão antigo, e o jogo entre realismo e efeito permanece atemporal", comentou Jason Evans Groth, curador de imagens em movimento na Library of Congress.
Há uma camada adicional de dramaturgia documental: Méliès, além de pioneiro dos efeitos, foi também vítima do tempo e da própria indústria. Relatos indicam que o cineasta destruiu cerca de cem negativos, cuja película teria sido reutilizada para fabricar botas para soldados franceses durante a Primeira Guerra Mundial — um símbolo duro do desapego material e das prioridades de Estado em tempos de conflito.
Este reaparecimento funciona como um movimento decisivo no tabuleiro da memória cultural: recupera um fragmento até então apenas catalogado em listas, e realça a condição de vulnerabilidade dos registros do início do cinema. A cópia encontrada por McFarland oferece aos historiadores e conservadores a oportunidade de reassessinar os métodos de preservação e o traçado de influência entre Europa e América nessa fase inaugural.
Para além da descoberta técnica, o episódio é também a narrativa íntima de uma família — de um proiezionista rural aos descendentes que guardaram, sem saber, um tesouro. É um lembrete de que, em muitos casos, os caminhos da história passam por objetos modestos: baús, sótãos e garagens que atuam como depósitos temporários de memórias cujo valor só se revela quando confrontado com instituições capazes de decifrá‑las.
Ao revelar Gugusse et l'automate, a Library of Congress não apenas acrescenta uma peça ao mosaico de Méliès, mas também reabre discussões sobre autenticidade, circulação e conservação de imagens em movimento — temas que permanecem centrais no redesenho invisível das fronteiras culturais entre nações e épocas.