Fim do Rojava: acordo histórico entre pressões americanas e ambições turcas devolve norte‑leste da Síria a Damasco

Acordo histórico entre curdos, EUA e Damasco encerra autonomia do Rojava; recursos e prisões passam ao governo sírio.

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Fim do Rojava: acordo histórico entre pressões americanas e ambições turcas devolve norte‑leste da Síria a Damasco

Em um movimento que redesenha, silenciosamente, um dos tabuleiros geopolíticos mais complexos do Oriente Médio, as forças curdas sírias aceitaram transferir o controle do norte‑leste do país para o governo de Damasco. O pacto, formalizado em um acordo de 14 pontos na noite de domingo e mediado pelo enviado especial americano Tom Barrack, marca o fim de fato da experiência semi‑autônoma do Rojava, que durou mais de uma década.

Assinado presencialmente pelo novo governo de Ahmed al‑Sharaa e com a presença virtual do líder das Forças Democráticas Sírias (SDF), Mazloum Abdi — impedido de viajar até Damasco por mau tempo — o cessar‑fogo prevê o recuo das milícias curdas a leste do Eufrates e a entrega imediata de áreas estratégicas ricas em petróleo, água e grãos. São recursos que funcionam como alicerces econômicos não apenas de um governo, mas de uma tectônica de poder regional.

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No fim de semana anterior ao acordo, as forças leais a Damasco realizaram uma avançada rápida a partir das posições em Aleppo para o leste, tomando sem resistência significativa cidades‑chave como Raqqa e Deir ez‑Zor, além dos importantes campos petrolíferos de al‑Omar, al‑Tanak e Conoco. A operação foi facilitada por um apoio decisivo de tribos árabes locais, historicamente refratárias à administração curda e insatisfeitas com o desempenho econômico do projeto autonomista.

As imagens de estátuas e monumentos simbólicos ligados aos combatentes curdos sendo derrubados em Tabqa tornaram‑se um ícone do fim de uma era. Fontes no terreno atribuem a ausência de resistência curda a uma combinação de pressões diplomáticas norte‑americanas e a uma garantia formal — ratificada por decreto presidencial — de reconhecimento de direitos civis e culturais aos curdos sírios, algo que Damasco não assegurava desde 1962, quando milhares foram privados da cidadania.

Para Washington, a guinada representa uma alteração pragmática de estratégia. Depois de anos de parceria com as forças curdas na luta contra o ISIS, os Estados Unidos delegam agora ao governo de al‑Sharaa o controle de áreas que incluem prisões com cerca de 20.000 suspeitos jihadistas e campos com milhares de mulheres e menores vinculados ao Estado Islâmico. É um movimento que expõe uma priorização: a gestão de riscos imediatos versus a manutenção de arranjos políticos locais.

O próprio Tom Barrack saudou o entendimento como um ponto de viragem, afirmando que ex‑adversários estão a optar por parceria em vez de separação, enquanto os Estados Unidos prometeram apoiar o processo de integração sem deixar de proteger seus interesses de segurança nacional. A ironia histórica é aguda: o mesmo al‑Sharaa que até recentemente figurava, por seu passado na Al‑Qaeda, em listas norte‑americanas de inimigos, agora ocupa um assento central no reassentamento do controle territorial.

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As implicações estratégicas são profundas. Para a Turquia, que perseguia com insistência a redução da influência curda ao longo de sua fronteira, o acordo representa um resultado desejável, ainda que alcançado com apoio norte‑americano que também visa preservar bases e interesses regionais. Para os curdos, trata‑se de uma retirada tática que mantém a promessa de direitos civis em troca de segurança imediata; para Damasco, é a recuperação de recursos vitais e de soberania simbólica.

Do ponto de vista de um estrategista, o acordo funciona como um movimento decisivo de peça num jogo em que o tabuleiro não é apenas territorial, mas institucional. A estabilidade futura dependerá da capacidade de transformar garantias em instituições duráveis — reconhecimento de cidadania, investimentos econômicos nos territórios reconquistados, e gestão segura das prisões e campos de deslocados. Sem essas fundações, o risco de reabertura de fraturas permanece.

O episódio ilustra também a arquitetura das alianças contemporâneas: velhos rótulos e listas de inimigos perdem força diante da necessidade de recompor fronteiras invisíveis e salvaguardar recursos estratégicos. A diplomacia, como na cartografia, redesenha linhas de influência segundo pressões simultâneas — militares, econômicas e simbólicas — em que cada movimento deixa consequências de longo prazo para o equilíbrio regional.

Em resumo, o que se consuma no nordeste sírio é menos um capítulo final do que uma realocação de peças. Resta ver se as garantias prometidas irão se transformar em instituições tangíveis ou se a próxima partida, em condições adversas, reabrirá velhas feridas num tabuleiro já demasiadamente esburacado.

Marco Severini é analista sênior de geopolítica e estratégia internacional da Espresso Italia.

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