Gaza: Hamas rejeita proposta de desarmamento dos EUA e vê 'armadilha' de Israel para retomar a Faixa
Hamas rejeita plano de desarmamento dos EUA em Gaza, chama proposta de armadilha de Israel; risco de nova ofensiva e crise humanitária cresce.
RESUMO ✦
Sem tempo? A Lili IA resume para você
Gaza: Hamas rejeita proposta de desarmamento dos EUA e vê 'armadilha' de Israel para retomar a Faixa
Por Marco Severini - Espresso Italia
O movimento Hamas recusou de forma categórica a proposta internacional que prevê o desarmo das facções palestinas na Gaza, apresentada sob a égide do chamado Board of Peace com forte participação de diplomatas e representantes estadunidenses. Fontes ligadas às negociações no Cairo descrevem a posição do grupo como irreversível: aceitar o plano seria, nas palavras dos interlocutores de Gaza, um “suicídio coletivo”.
Na leitura dos dirigentes do movimento, o pacote de medidas — que inclui o desmantelamento gradual das brigadas armadas, a transferência do poder para um organismo tecnocrático e um plano de reconstrução — não garante o fim da influência israelense nem assegura a via para a criação de um Estado palestino. O plano, tal como foi apresentado pelo enviado internacional Nickolay Mladenov com a participação de assessores norte-americanos e de um Board liderado, segundo críticos, por figuras ligadas à administração de Donald Trump, foi interpretado como estruturalmente assimétrico.
Ao rejeitar o texto, o Hamas qualificou o dispositivo como uma armadilha de Israel, destinada a facilitar uma retomada militar da Faixa de Gaza sob o pretexto do restabelecimento da ordem. No âmago da recusa está o receio — fundamentado em análises de risco e em experiências históricas locais — de que a entrega das armas equivaleria à perda de qualquer capacidade de defesa diante de grupos rivais e da pressão militar de Tel Aviv. “Entregar as armas significa expor-se completamente”, afirmaram fontes internas das Brigadas al-Qassam.
O contexto financeiro e político que cerca o plano também fragiliza sua credibilidade. Dos US$17 bilhões prometidos para a reconstrução, menos de US$1 bilhão teria sido efetivamente liberado, com recursos vindos apenas dos Estados Unidos, do Marrocos e dos Emirados. A escassez de fundos amplia a percepção de que o projeto é, na prática, inviável e dependente de um ambiente de segurança que hoje não existe.
Do ponto de vista de Israel, relatos indicam que a recusa de Hamas elevou o risco de uma nova ofensiva total contra a Faixa, com autoridades de segurança de Tel Aviv avaliando a possibilidade de acelerar operações para consolidar um controle mais amplo do território antes do início de maio. Essa movimentação, se confirmada, desenharia um cenário de escalada e renovada crise humanitária, com consequências geopolíticas profundas para a região.
Em termos estratégicos, estamos diante de um movimento decisivo no tabuleiro: o pacote de desarmamento funcionaria como uma troca de soberania por reconstrução, mas sem garantias institucionais capazes de sustentar um equilíbrio duradouro. A desconfiança mútua, aliada à insuficiência de recursos e à presença de atores com agendas divergentes, torna os alicerces desta solução frágeis. A tectônica de poder na região permanece complexa — e qualquer tentativa de redesenhar fronteiras de facto exigirá garantias concretas, monitoramento independente e cronogramas realistas que até agora não foram oferecidos.
Para observadores de longo prazo, a lição é clara: soluções impostas sem legitimidade política local e sem segurança verificável tendem a ser rejeitadas e podem acelerar conflitos, em vez de pacificá-los. O futuro imediato de Gaza dependerá da capacidade das partes e dos mediadores de transformar a desconfiança em garantias verificáveis — uma tarefa que exige paciência diplomática, credibilidade financeira e, sobretudo, respeito aos vetores de poder local que hoje comandam o terreno.