Gaza: Sham Al-Harazin, 5 anos, sobreviveu a cinco ataques aéreos e sonha tornar-se médica
Menina de 5 anos em Gaza sobreviveu a cinco ataques; sonha ser médica para curar a mãe e enfrenta falta de cuidados e deslocamentos.
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Gaza: Sham Al-Harazin, 5 anos, sobreviveu a cinco ataques aéreos e sonha tornar-se médica
Por Marco Severini, Espresso Italia — Em uma tenda de deslocados, no contorno áspero de uma faixa de terra marcada por estratagemas de poder, a menina de cinco anos Sham Al-Harazin permanece em silêncio, mas com uma determinação que desafia a precariedade da sua juventude. O pequeno corpo de Sham carrega as cicatrizes de cinco episódios distintos de bombardeios aéreos. Cada sobrevivência é, na prática, um movimento no tabuleiro, uma jogada que preservou uma vida jovem em meio ao colapso das rotas de proteção civil.
Com voz trêmula, ela pergunta ao interlocutor o que qualquer criança perguntaria: "Por que nos bombardearam? O que eu fiz?" As perguntas simples atravessam um cenário complexo, onde os alicerces da diplomacia e das instituições de saúde estão fragmentados. As perdas sofridas por Sham não se limitam às feridas visíveis: a menina conta que perdeu o avô, a avó e vários tios maternos durante os ataques. Ela e a mãe, Nayla Marish, sofreram ferimentos em múltiplas ocasiões.
Nayla narra um percurso de deslocamentos contínuos dentro da Faixa de Gaza — Deir al-Balah, Gaza City, Al-Zeitoun e Al-Rimal — que tornam evidente a lógica de deslocamento forçado e a erosão dos espaços seguros. Durante um dos ataques, Nayla perdeu sua mãe e irmãos. Ferida por estilhaços e com fraturas que resultaram em paralisia parcial, ela aguarda há mais de um ano uma transferência médica fora da Faixa de Gaza devido à falta de estruturas especializadas no território.
A condição de Nayla a impede de recuperar mobilidade: "Não sinto mais os membros. Minha única esperança é sair para receber tratamento e voltar a andar, para poder cuidar da minha filha", diz ela. Esse quadro revela a combinação cruel entre necessidade médica e restrições de mobilidade impostas pela geopolítica regional — uma tectônica de poder que determina quem tem acesso à cura e quem permanece à margem.
Um dos episódios mais dramáticos ocorreu quando a tenda onde mãe e filha buscavam abrigo foi atingida. As chamas consumiram a estrutura e, ainda assim, apesar das próprias limitações físicas, Nayla arrastou-se pelo chão para resgatar Sham — um gesto que salvou a vida da menina pela quinta vez. Hoje, ambas vivem em uma tenda sem itens essenciais; a exposição ao sol agrava a condição médica de Nayla e os cuidados especializados continuam ausentes.
Para Sham, a guerra reconfigurou a infância: ela não frequenta o jardim de infância, acorda aterrorizada durante a noite e se assusta com ruídos que lembram ataques. E, no entanto, mantém um sonho notavelmente claro: "Quando crescer, quero ser médica — quero cuidar das pessoas, das crianças e curar minha mãe." É uma aspiração que ilumina, em termos simples, o que a sociedade civil tanto precisa: profissionais de saúde capazes de reparar vidas e construir pontes de recuperação.
Como analista que observa a arquitetura das decisões internacionais, vejo a história de Sham Al-Harazin como um retrato emblemático do custo humano de escolhas estratégicas. Enquanto as grandes potências e os atores regionais movem peças sobre o tabuleiro, existem vidas que se adaptam e resistem, com esperanças depositadas em profissões que, em tempos normais, simbolizam reconstrução e cura.
O caso de Sham e de Nayla impõe uma reflexão sobre a urgência humanitária: o acesso à transferência médica, o reestabelecimento de estruturas de saúde e a proteção de civis são movimentos decisivos para evitar que o sofrimento se cronifique. Em termos cartográficos, trata-se de redesenhar fronteiras invisíveis que determinam quem pode receber tratamento e quem permanece à margem — um desafio que envolve diplomacia, logística e um mínimo compromisso ético da comunidade internacional.
Enquanto isso, a menina segue sonhando em branco e azul: curar, salvar, recompor. É um sonho com a sobriedade de quem já aprendeu que, no tabuleiro da vida, cada movimento conta.