Gerhard Schröder: o arquiteto de pontes com Putin e o legado controverso na Alemanha

Perfil analítico de Gerhard Schröder: sua trajetória política, laços com Putin e o legado das reformas e do Nord Stream.

Gerhard Schröder: o arquiteto de pontes com Putin e o legado controverso na Alemanha

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Gerhard Schröder: o arquiteto de pontes com Putin e o legado controverso na Alemanha

Por Marco Severini — Aos 82 anos, Gerhard Schröder permanece uma figura emblemática e polarizadora na política europeia: o estadista que, para Vladimir Putin, seria o interlocutor europeu ideal para discutir uma solução negociada para a guerra na Ucrânia. A biografia de Schröder explica parte dessa singularidade — e também os vínculos que o tornaram objeto de críticas e investigações.

Nascido em 1944 em Mossenberg, na Vestfália, filho de uma família de recursos modestos e com um pai morto na guerra, Schröder formou-se em direito conciliando os estudos com trabalho, por cursos noturnos. A entrada no SPD em 1963 e a rápida ascensão dentro das fileiras social-democratas — presidente dos jovens socialistas em 1978 — traçam o desenho de um homem do partido, forjado nas estruturas do Estado e na geografia política da Alemanha ocidental.

Eleger-se ao Bundestag em 1980 e tornar-se Ministro-Presidente da Baixa Saxônia em 1990 foram movimentos que culminaram, em 1998, com sua eleição como chanceler federal, derrotando Oskar Lafontaine. A aliança inédita com os Verdes, que deu ao país o primeiro governo “vermelho-verde”, introduziu no centro do poder figuras como Joschka Fischer e elementos da esquerda extraparlamentar — uma configuração política que alterou o mapa tradicional dos partidos na Alemanha.

O legado interno mais duradouro de Schröder é, porém, a chamada Agenda 2010, aprovada em 2003, acompanhada das reformas Hartz. Projetada para liberalizar o mercado de trabalho e reduzir o desemprego, a agenda foi descrita como um programa de “sangria e reformas” e, em curto prazo, aprofundou a impopularidade do chanceler, provocando a cisão que levou à criação da WASG por lideranças descontentes, entre elas Lafontaine. A perda do poder em 2005, frente à ascensão de Angela Merkel, ficou inscrita como consequência política dessas escolhas — um movimento decisivo no tabuleiro interno da social-democracia alemã.

No plano internacional, a relação com a Rússia marcou a segunda fase da sua carreira. Após deixar o cargo em 2005, Schröder assumiu posições executivas ligadas ao setor energético — em especial como presidente do conselho de vigilância do projeto Nord Stream e, posteriormente, do Nord Stream 2, estruturas capitaneadas por grupos com participação majoritária da Gazprom. Esses vínculos estreitaram uma ponte direta entre o seu círculo e o Kremlin, e suscitaram resistência em Bruxelas e em setores da política alemã.

Mais recentemente, a criação de uma fundação ligada ao estado de Mecklenburg-Pomerânia-Antepommern — Stiftung Klima- und Umweltschutz MV — e outros arranjos administrativos relacionados ao projeto Nord Stream 2 atraíram atenções e motivaram investigações. Não se trata apenas de apuração jurídica: é também o escrutínio público sobre os alicerces frágeis da diplomacia empresarial entre Berlim e Moscou.

Como analista de geopolítica, vejo em Schröder uma peça cuja trajetória simboliza um redesenho de fronteiras invisíveis entre Estado, mercado e influência externa. Sua figura evoca uma cartografia de poder em que alianças energéticas funcionam como corredores estratégicos e a diplomacia privada opera como lance determinante no grande tabuleiro. Para alguns, ele continua sendo um mediador plausível entre Ocidente e Rússia; para muitos outros, é o exemplo de como vetores econômicos podem comprometer a autonomia decisória de um ator nacional.

Enquanto a investigação prossegue, o que permanece é a ambivalência: um político de origem modesta, reformador num momento crítico da história alemã, e depois um articulador de interesses que atravessaram fronteiras e suscitaram dúvidas. Schroeder é, em última instância, a personificação de uma tectônica de poder em trânsito — e a lembrança de que, no xadrez das relações internacionais, movimentos de retaguarda podem reconfigurar o jogo inteiro.