Censura e desinformação no Golfo: As vozes árabes sobre a guerra no Irã e o mito do 'Shahanshah'

Como censura e desinformação no Golfo moldam a narrativa sobre a guerra no Irã e o mito do 'Shahanshah', segundo RAI Al-Arab.

Censura e desinformação no Golfo: As vozes árabes sobre a guerra no Irã e o mito do 'Shahanshah'

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Censura e desinformação no Golfo: As vozes árabes sobre a guerra no Irã e o mito do 'Shahanshah'

Por Marco Severini — Em uma alteração discreta, porém estratégica, do tabuleiro informativo do Golfo, governos que durante anos cultivaram imagens idílicas para atrair investimentos e turismo agora reforçam mecanismos de controle sobre o fluxo de informação sobre a guerra no Irã. A sexta edição de RAI Al-Arab dedicou-se a examinar essa tendência: a combinação de censura, desinformação e uma leitura histórica que explica parte das ambições externas de Teerã.

No episódio, jornalistas e analistas oferecem um retrato por vezes surpreendente — não apenas pela dureza das medidas, mas pela sua racionalidade burocrática. Autoridades nos Emirados Árabes, na Arábia Saudita e em outros Estados do Golfo estabeleceram punições severas para quem divulga imagens dos ataques iranianos em redes sociais: prisões, multas e processos sumários. Relatos jornalísticos citam que 313 pessoas foram presas no Qatar e outras dez nos Emirados por publicar vídeos classificados como “enganosos”. Em Bahrain há detenções cautelares que rapidamente viram processos por “promoção e glorificação de atos hostis iranianos”.

Repórteres do diário independente egípcio Al-Manassa, Youssef Aqeel e Jasser Al-Dabaa, ouviram egípcios expatriados nos países do Golfo — nomes fictícios foram usados para preservar identidades. Mahmoud, que trabalha em Abu Dhabi, relata ordens explícitas no ambiente profissional: oficiais pediram que respondesse às famílias que estava tudo bem e requisitaram seu login no Facebook para garantir que nada crítico seria postado. Em outros casos, o efeito é de autocensura: pessoas como Khaled, professor no Dubai, descrevem um silêncio imposto pela atmosfera geral — "sem ninguém dizendo o que fazer, você se manifesta por conta própria".

Na Arábia Saudita, o controle tem uma via adicional: instruções vindas de autoridades religiosas. Sermões de sexta-feira passaram a avisar fiéis sobre a proibição de fotografar determinados acontecimentos, com ameaças explícitas de prisão para quem fosse apanhado registrando imagens.

O programa também mapeou um eixo histórico: a construção da identidade persa e seu reflexo nas escolhas de política externa. Em 1934, o rei Reza Pahlavi renomeou a Pérsia para Irã — "Terra dos Árianos" — num alinhamento com o fortalecimento das relações com a Alemanha nazista. Seu sucessor, Mohammad Reza Pahlavi, adotou o título de Shahanshah — o "Rei dos Reis" da tradição persa — um emblema que ainda ecoa símbolos e narrativas do poder iraniano contemporâneo, inclusive em debates sobre ambições nucleares.

Ao analisar essas peças, deve-se ver o movimento do Golfo não apenas como repressão isolada, mas como parte de uma arquitetura estratégica maior: proteger interesses econômicos, prevenir contágios políticos internos e moldar percepções públicas num momento em que a tectônica de poder regional está em mutação. É um movimento decisivo no tabuleiro da informação, onde censura e narrativa histórica se entrelaçam para redesenhar fronteiras invisíveis da influência.

Conclui o episódio uma imagem clara: a guerra no Irã é interpretada, no mundo árabe, por prismas múltiplos — medo geopolítico, guerra de narrativas e um jogo de influências que privilegia a estabilidade dos regimes do Golfo sobre a livre circulação de imagens e relatos. Num jogo de xadrez regional, o controle da informação é peça-chave para definir quem terá iniciativa e quem ficará na defensiva.