Crocevia Islamabad: como o Paquistão e aliados sunitas buscam impedir uma escalada entre EUA e Irã

Paquistão coordena mediação entre EUA e Irã com apoio da Turquia, Arábia Saudita e Egito para evitar escalada e proteger o Estreito de Hormuz.

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Crocevia Islamabad: como o Paquistão e aliados sunitas buscam impedir uma escalada entre EUA e Irã

Por Marco Severini — Em um movimento que lembra um lance crítico em um tabuleiro de xadrez, surge a possibilidade de interromper uma escalada militar entre Estados Unidos e Irã em prazo extremamente curto: 48 horas. O anúncio de Donald Trump sobre negociações possíveis com Teerã foi recebido com ceticismo por autoridades iranianas, que ironizaram a iniciativa. Ainda assim, fontes paquistanesas e meios de imprensa norte-americanos apontam o Paquistão como o vértice diplomático capaz de articular um encontro.

O papel do Paquistão não é casual. Além de acolher a segunda maior população xiita do mundo depois do Irã — estimada em 5% a 20% da comunidade muçulmana do país —, Islamabad aparece hoje como um ator de ponte entre potências. A operação diplomática envolve também três Estados de maioria sunita: Turquia, Arábia Saudita e Egito, todos empenhados em evitar que o conflito se transforme em um incêndio regional.

O mediador em carne e osso identificado pelas fontes é o chefe do Estado-Maior do Exército paquistanês, Syed Asim Munir. Desde o conflito fronteiriço entre Índia e Paquistão em 2025, Munir emergiu como figura central — um líder de facto cujo prestígio junto aos Estados Unidos e à China aumentou. Em junho do ano passado foi recebido na Casa Branca por Trump, e no fim de semana manteve contato telefônico com o ex-presidente, gesto que abriu caminho para uma reunião a ser realizada em Islamabad.

O encontro planeja reunir representantes norte-americanos — entre eles o vice-presidente J.D. Vance e os enviados especiais Steve Witkoff e Jared Kushner — com interlocutores iranianos ainda não oficialmente identificados. Segundo o Wall Street Journal, a coordenação entre Paquistão, Turquia, Arábia Saudita e Egito busca realizar a interlocução antes de um prazo marcado pelo presidente americano, que prometeu nova fase de ataques contra infraestruturas energéticas iranianas caso não haja progresso até sábado.

Ancora diplomática e cartográfica dessa iniciativa é a preocupação com o Estreito de Hormuz. O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, advertiu publicamente sobre os riscos sistêmicos de uma paralisação do tráfego na via — um evento capaz de desorganizar a economia global — e reafirmou que a Turquia pretende manter-se fora do “círculo de fogo” que pode desintegrar equilibrios regionais.

Por intermédio do Paquistão teria sido transmitida a Teerã uma primeira versão de um plano de paz norte-americano em 15 pontos. O New York Times descreveu o conteúdo como uma proposta que inclui o amplo desmantelamento do programa nuclear iraniano e de capacidades balísticas, com suspensão do enriquecimento de urânio no território iraniano e supervisão contínua da AIEA, além de garantias de segurança marítima no Estreito de Hormuz. Em contrapartida, Washington apresentaria a retirada do mecanismo de “snapback”, que permite a reimposição automática de sanções via mecanismos multilaterais.

O desenho é ambicioso e frágil ao mesmo tempo: exige confiança mútua, verificação técnica e garantias políticas que o Irã até agora rejeita em tom sarcástico. A tectônica de poder da região — com atores estatais e não estatais, rivalidades sectárias e interesses energéticos — transforma qualquer proposta em um arranjo complexo, onde cada movimento pode redesenhar fronteiras invisíveis de influência.

Resta saber se o papel de ponte atribuído ao Paquistão e à figura de Syed Asim Munir terá legitimidade suficiente para articular concessões duradouras. Se a diplomacia falhar, o custo será medido não apenas em infraestruturas danificadas, mas em alicerces frágeis da ordem regional. Se vencer, teremos assistido a um movimento decisivo no tabuleiro que preserva, ainda que temporariamente, a estabilidade.