Zelensky acusa Rússia de usar mísseis da Coreia do Norte em ataque a Zaporizhzhia; tensão geopolítica escala
Zelensky acusa Rússia de usar mísseis da Coreia do Norte em Zaporizhzhia; tensões crescem entre Kiev, Moscou e Seul com riscos para o Indo-Pacífico.
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Zelensky acusa Rússia de usar mísseis da Coreia do Norte em ataque a Zaporizhzhia; tensão geopolítica escala
Por Marco Severini — Em novo episódio da frágil tectônica de poder que atravessa a guerra na Ucrânia, o presidente Zelensky acusou oficialmente a Rússia de empregar mísseis balísticos fornecidos pela Coreia do Norte no bombardeio da cidade de Zaporizhzhia, no sul ucraniano. O ataque deixou um saldo imediato de seis mortos e 19 feridos, segundo autoridades locais, e se soma a outros incidentes que custaram três mortos e cinco feridos em ataques com drones e artilharia na região de Dnipropetrovsk.
Na linguagem austera de um estrategista que observa o tabuleiro, Zelensky qualifica a ofensiva como "um ataque brutal, calculado para infligir o máximo dano". Além da alegada utilização de vetores norcoreanos, o presidente ucraniano mencionou o emprego de mísseis hipersônicos Zircon e bombas aéreas guiadas, sem, no entanto, apresentar evidências públicas imediatas.
O cenário ganha camadas adicionais quando se considera a afirmação de Kiev sobre o iminente reforço russo com tropas oriundas da Coreia do Norte — entre 30.000 e 50.000 soldados, de acordo com alertas anteriores — e o perigo de transferência de experiência bélica para a região do Indo-Pacífico, envolvendo Japão, Coreia do Sul e Filipinas. Em reação, Kiev solicitou a Seul o início de uma cooperação militar mais robusta para fortalecer o escudo aéreo ucraniano.
Seul, contudo, manteve a linha de distinção: fontes do ministério das Relações Exteriores sul-coreano confirmaram que o país vai limitar o apoio a auxílios humanitários, energéticos e de reconstrução, excluindo a entrega de armas letais ou sistemas de defesa antiaérea. Trata-se de um movimento cuidadoso sobre alicerces diplomáticos frágeis, onde cada passo altera realinhamentos sutis no grande mapa.
Do lado russo, o Ministério da Defesa reivindicou os ataques noturnos, apontando como alvos infraestruturas militares e logísticas em Kiev e Zaporizhzhia. Entre os alvos citados estão um centro de distribuição da empresa Nova Poshta, acusado de manejar materiais de duplo uso para produção de drones, e o complexo metalúrgico Zaporizhstal, ligado ao grupo Metinvest, associado à produção de blindagens e coletes à prova de bala.
No contraponto, forças ucranianas reivindicaram um ataque à refinaria Orsknefteorgsintez, em Orsk (região de Orenburg), uma instalação com capacidade na ordem de 6 milhões de toneladas por ano. Relatos também indicam incêndio em uma refinaria em Komsomolsk sobre o Amur, embora as causas ainda não estejam esclarecidas. Na região de Voronezh, um ataque de drones ucranianos teria matado um civil e ferido dois — atingindo depósitos empresariais.
Em teatro distinto, mas que compõe o mesmo mosaico de instabilidade global, Israel realizou um bombardeio descrito como "massivo" no vilarejo de Haddatha, no distrito de Bint Jbeil; até o momento não há confirmação de vítimas. Paralelamente, um tribunal sírio condenou à morte, à revelia, o ex-presidente Bashar al-Assad por crimes contra a humanidade e crimes de guerra — decisão que reabre velhas fissuras na arquitetura regional.
Este conjunto de incidentes revela um redesenho de fronteiras invisíveis: alianças que se afivelam, transferências de tecnologia e militares que desafiam normas internacionais, e Estados que calibram sua resposta entre coerência estratégica e limites políticos internos. No tabuleiro global, cada movimento — seja a alegada remessa de vetores da Coreia do Norte ou a recusa de Seul em fornecer defesa antiaérea — desenha um novo equilíbrio de forças, exigindo uma leitura fria e de longo prazo por parte das capitais ocidentais e dos parceiros regionais.
Enquanto as investigações sobre os artefatos utilizados e a responsabilidade concreta pelos ataques prosseguem, convergem duas certezas: o conflito se internacionaliza em ritmos diferentes, e as linhas de defesa — tecnológicas, diplomáticas e logísticas — tornam-se, cada vez mais, o campo de batalha para a estabilidade futura.