Investigação do NYT aponta uso de fósforo branco pela Israel nas cidades do sul do Líbano
Investigação do NYT aponta uso de fósforo branco por forças israelenses em Nabatieh, Tiro e outras localidades no sul do Líbano.
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Investigação do NYT aponta uso de fósforo branco pela Israel nas cidades do sul do Líbano
Por Marco Severini — Uma investigação do New York Times, publicada em 6 de junho, traz à tona evidências visuais que indicam o emprego de fósforo branco por forças israelenses sobre áreas civis no sul do Líbano. As imagens e vídeos verificados pelo jornal mostram nuvens e trilhas de material incandescente sobre Nabatieh no dia 30 de maio, momento em que as forças que avançavam conquistavam o histórico castelo de Beaufort. Nabatieh tem cerca de 40 mil habitantes e configura-se como um nó sensível no tabuleiro regional.
As mesmas análises documentam episódios semelhantes nas proximidades de Tiro e nas localidades de Qlayaa, Khiam e Yohmor durante o mês de março. Peritos em munições consultados pelo NYT concluíram que as imagens correspondem a projéteis de artilharia que explodem em voo, liberando verdadeiros rios de fósforo branco incandescente sobre zonas habitadas.
Do ponto de vista médico e humanitário, os efeitos são aterradores: o fósforo branco entra em combustão espontânea ao contato com o oxigênio, queima a cerca de 800 graus Celsius e é extremamente difícil de extinguir — a água, em muitos casos, pode agravar a combustão ao fornecer umidade que reacende as partículas ainda quentes. Segundo o pesquisador Ramzi Kaiss, do Human Rights Watch Líbano, essa substância, quando usada contra populações civis, pode causar lesões permanentes, queimaduras profundas que atingem pele, músculos e ossos, além de provocar danos respiratórios e insuficiência orgânica.
Budour Hassan, pesquisadora da Amnesty International sobre Israel e Palestina, observa que o material pode continuar a arder por dias ou semanas, e que resíduos químicos persistem no solo, na água e nas colheitas, envenenando o ambiente muito tempo após o ataque. Isso traduz-se num impacto humanitário e ecológico duradouro: retorno inseguro das populações, contaminação de cadeias alimentares e um aumento da mortalidade indireta.
No plano jurídico, a comunidade internacional dispõe de instrumentos que regulam o emprego de agentes incendiários em áreas civis — entre os marcos relevantes estão a Convenção sobre Armas Químicas e o Protocolo III da Convenção sobre Certas Armas Convencionais —, que impõem restrições severas ao uso de munições destinadas a provocar incêndios em populações civis. Até o momento, o Exército de Israel não emitiu comentário específico sobre os episódios e as coordenadas geográficas levantadas pelo NYT.
Para o analista de relações internacionais, estes episódios são mais do que eventos isolados: constituem um movimento no tabuleiro da tectônica de poder regional. O emprego de materiais que geram danos indiscriminados reconfigura os riscos para civis e adiciona dimensão legal e política às operações militares. A acumulação de documentação e imagens verificadas amplia a pressão por investigações independentes e por respostas diplomáticas dos atores internacionais que desejam preservar os alicerces frágeis da diplomacia no Levante.
É imperativo que órgãos internacionais competentes avaliem tecnicamente as provas e que mecanismos de responsabilização sejam acionados, para que a arquitetura normativa que proíbe ataques a civis não seja convertida em mero espaço retórico. Do ponto de vista estratégico, cada uso de armamento controverso altera percepções e recalibra alianças: trata-se de um redesenho de fronteiras invisíveis, onde a legitimidade e a reputação se tornam peças valiosas no jogo de influência.
Enquanto isso, a população das áreas atingidas enfrenta a tríplice consequência de ferimentos físicos, trauma psicológico e degradação ambiental. A comunidade internacional — dos organismos de direitos humanos às instâncias diplomáticas — tem pela frente a obrigação de responder com investigação rigorosa e medidas que limitem novos episódios desse tipo.