Irã reconecta Internet após meses de blackout: retomada lenta e filtrada em meio a negociações em Doha

Irã retoma internet após meses de blackout: acesso parcial e filtrado em meio a negociações em Doha e disputa interna pelo controle das comunicações.

Irã reconecta Internet após meses de blackout: retomada lenta e filtrada em meio a negociações em Doha

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Irã reconecta Internet após meses de blackout: retomada lenta e filtrada em meio a negociações em Doha

Por Marco Severini — Em um movimento que revela tanto a tensão interna quanto as limitações do poder executivo, o Irã reabriu parcialmente o acesso à Internet para sua população após um apagão nacional que durou meses. A reabilitação das comunicações ocorre de forma irregular e filtrada, afetando quase 90 milhões de habitantes e ilustrando um novo capítulo na tectônica de poder regional.

Segundo monitoramento da ONG NetBlocks, os serviços voltaram com uma capacidade estimada em cerca de 40% dos níveis pré-conflito, após um período de isolamento que foi quantificado em aproximadamente 2.093 horas — o que corresponde ao bloqueio nacional mais prolongado registrado na era moderna das redes. Em contagem diária, fontes mencionam também a marca de 88 dias entre o início das restrições mais severas e esta primeira abertura parcial, um dado que evidencia a dimensão do corte.

Durante o apagão, apenas uma minoria recorreu a soluções caras e tecnicamente sofisticadas, como VPNs avançadas, para contornar a censura e manter algum contato com o mundo exterior. Agora, com a volta seletiva das conexões, observa-se alívio público nas redes — embora, como adverte a própria NetBlocks, reste incerto por quanto tempo a recuperação persistirá.

O impulso inicial para a reabertura partiu do presidente Massoud Pezeshkian, cuja decisão foi, contudo, quase imediatamente contestada pela magistratura do país. A suspensão emergiu em consequência do mais recente ataque norte-americano, descrito por Washington como um ato de “autodefesa”, e por reclamações formais que as autoridades locais não detalharam. No plano interno, o episódio desnuda uma fissura clara entre forças mais pragmáticas — favoráveis a atenuar o isolamento e retomar canais — e os setores mais belicistas, que olham com profundo ceticismo qualquer aproximação com os Estados Unidos.

No cenário internacional, a reabertura ocorre em paralelo às conversações mediadas em Doha, onde Teerã procura estabelecer um acordo de princípios com Washington sobre o estreito de Hormuz e outras questões estratégicas. É um movimento simultâneo: no tabuleiro diplomático, tenta-se avançar em direção a um entendimento; em solo doméstico, os alicerces dessa política ainda são instáveis.

O vice-presidente Mohammad Reza Aref saudou a iniciativa como “o primeiro passo rumo a um acesso livre e regulamentado ao ciberespaço”, expressão que traduz uma ambição de normalização controlada. Ainda assim, a retomada das comunicações permanece vulnerável a novos retrocessos e a decisões judiciais ou de segurança que podem reinstalar medidas restritivas a qualquer momento.

Da minha perspectiva analítica, o episódio deve ser lido como um lance de alto risco num jogo estratégico mais amplo: a reabertura parcial da Internet é ao mesmo tempo um teste de governabilidade interna e uma carta nas negociações externas. A evolução nas próximas semanas dirá se esse movimento é um avanço permanente ou mera manobra tática, cujo objetivo é aliviar pressões públicas sem comprometer escolhas geopolíticas mais radicais.