Itaca antecipa boom de turistas após sucesso de 'Odisseia' de Nolan

Itaca espera aumento de turistas após o sucesso da 'Odisseia' de Nolan; visibilidade gera oportunidades e frustrações pela ausência de filmagens na ilha.

Itaca antecipa boom de turistas após sucesso de 'Odisseia' de Nolan

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Itaca antecipa boom de turistas após sucesso de 'Odisseia' de Nolan

Itaca se prepara para um novo capítulo em sua longa relação com a memória homérica. Em um porto silencioso, enquanto o ferry reduz a velocidade para atracar, a advogada italiana Giorgia Ongarato descreve com emoção o que a trouxe à ilha: não apenas suas praias e enseadas, mas o laço cultural com a Odisseia — poema que voltou aos holofotes globais pela adaptação cinematográfica de Nolan.

Vestida com uma camiseta que reproduz a palavra 'Odisseia' em grego antigo e um verso do poema, Ongarato disse que visitá-la era um sonho de infância: estudou grego e a Odisseia desde jovem. Embora reconheça que o filme não foi sua primeira aproximação com as lendas de Ulisses, ela confessa ser fã da narrativa que trata da viagem para retornar ao lar.

No terreno da política local e da economia, a chegada do mega-sucesso cinematográfico é vista como um potencial movimento decisivo no tabuleiro turístico da ilha. Itaca, situada no Mar Jônico, a oeste do continente grego, sempre foi um destino remoto em relação aos grandes circuitos turísticos: um interior áspero, coberto por olivais e ciprestes, enseadas de águas claras e uma tranquilidade surpreendente mesmo no auge da estação.

Os atores locais já sentem o efeito da onda midiática. Xhimi Xoxha, proprietário de um restaurante em Vathi, o centro urbano da ilha, afirmou que o filme já está gerando publicidade e que os impactos positivos tendem a se prolongar. Por sua vez, o prefeito Dionysis Stanitsas classificou a visibilidade como "extraordinária", mas não ocultou a decepção política e pragmática pelo fato de Itaca não ter sido cenário de filmagem. Segundo ele, houve contatos com a equipe de produção para trazer cenas à ilha, mas isso não foi viabilizado.

Há uma tensão cuidadosa entre benefício simbólico e frustração concreta: a projeção internacional coloca Itaca em uma vitrine que potencialmente redesenha rotas de turismo, mas os alicerces locais — infraestrutura, capacidade hoteleira e preservação ambiental — precisarão resistir ao aumento de demanda. O prefeito, no entanto, aposta em um aumento na procura já no próximo ano; a ilha já estava com ocupação completa para a temporada em curso quando o filme estreou mundialmente, em 16 de julho, e foi exibido em duas sessões ao ar livre na própria Itaca.

Não se espere, contudo, encontrar um palácio arqueológico que comprove, de modo categórico, a existência do herói homérico. A ilha não oferece restos monumentais atribuíveis incontestavelmente a Ulisses. O que o visitante encontra — e que confirma a presença viva do imaginário literário — são praças de aldeias e o edifício municipal adornados por estátuas de Ulisses e de Omero, pequenas embarcações com nomes como "Telemaco" e "Calipso" oscilando nas águas verdes do porto, e lojas de souvenirs abastecidas com bustos e camisetas temáticas.

Parte da narrativa pública também incorporou um ponto sensível: embora cenas tenham sido rodadas na Grécia, nenhuma sequência do blockbuster foi filmada em Itaca. Esse detalhe gerou debate entre moradores e autoridades, que esperavam maior protagonismo nas imagens difundidas globalmente.

Como analista, observo que este episódio configura um movimento mais amplo na tectônica de poder do turismo cultural: produções de grande alcance funcionam como magnéticas, deslocando itinerários e expectativas. Para Itaca, o desafio será transformar visibilidade em desenvolvimento sustentável, preservando suas paisagens e sua calma característica, evitando que a ilha perca a essência que a torna, para muitos, a casa lendária de Ulisses.

Marco Severini – Espresso Italia