Líbano em chamas: até onde a ONU pode agir para frear Israel e estabilizar o sul?
Conflito Israel-Líbano: o que a ONU pode (e não pode) fazer para impor cessar-fogo e proteger civis no sul do Líbano.
RESUMO ✦
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Líbano em chamas: até onde a ONU pode agir para frear Israel e estabilizar o sul?
Por Marco Severini - Em um movimento que reconfigura a tática e a percepção estratégica do Levante, a atual escalada entre Israel e o Líbano projeta uma crise humanitária e política de amplas consequências. Bombardeios sistemáticos, destruição de infraestrutura civil e o deslocamento de centenas de milhares de civis no sul libanês desenham um quadro que organizações humanitárias já qualificam como insustentável. No centro desse turbilhão, a questão que persiste é a mesma: o que realmente pode fazer a ONU quando lhe faltam a vontade política e a unidade do sistema de grandes potências?
Do ponto de vista militar, o governo liderado por Benjamin Netanyahu reiterou como objetivo a neutralização do braço militar do Hezbollah. No terreno, no entanto, as operações prosseguem sem sinais concretos de trégua — e a possível ultrapassagem do Rio Litani acendeu alarmes diplomáticos sobre a transformação dessa presença em ocupação de fato.
Na superfície das negociações internacionais, houve notícias de um cessar-fogo temporário anunciado como de dez dias, pressionado pelos Estados Unidos e recebendo resistências internas dentro do gabinete israelense. Mesmo assim, movimentos táticos sobre o terreno mostram que condicionantes políticos domésticos e objetivos estratégicos de longo prazo tornam a trégua frágil.
É aqui que a arquitetura multiliteral encontra seus limites. A Organização das Nações Unidas dispõe de instrumentos formais que, em teoria, poderiam alterar o curso do conflito: uma resolução vinculante do Conselho de Segurança impondo um cessar-fogo imediato; o reforço e a redefinição do mandato da UNIFIL para uma força realmente estabilizadora; a abertura de corredores humanitários sob proteção internacional; e a imposição de sanções direcionadas contra atores que alimentem a escalada.
Na prática, todavia, essas alavancas dependem do mote fundamental da Realpolitik: a convergência de interesses entre membros permanentes e atores regionais. O risco de veto por parte de potências com vetos no Conselho, interesses concorrentes e o jogo de salvaguardas entre Washington, Teerã e aliados regionais transforma cada proposta em um movimento no tabuleiro cujo sucesso não é apenas técnico, mas profundamente político.
Uma alternativa plausível, pouco explorada na retórica pública, seria a combinação de medidas: reconfigurar a UNIFIL com um mandato robusto de estabilização e regras de engajamento claras; instituir missões multilaterais de monitoramento e proteção de civis; e articular, em paralelo, um mecanismo de negociação mediado por atores com credibilidade regional — Europa e Nações Unidas como facilitadores e Estados Unidos e potências do Golfo como garantidores. Tudo isso exigiria, porém, uma dose substancial de vontade política que hoje não se observa de forma coordenada.
As limitações práticas não eliminam responsabilidades. A crise humanitária impõe ações imediatas: corredores para ajuda médica e alimentação, proteção de deslocados, e investigação sobre violações ao direito internacional humanitário. Ao mesmo tempo, sem operações políticas que enfrentem as raízes do conflito — dinâmica entre Israel, Hezbollah, e as esferas de influência regionais —, qualquer solução será temporária.
Como analista, vejo este momento como um movimento decisivo no tabuleiro regional: civis são as peças mais vulneráveis e as instituições multilaterais, ainda que capazes, só produzirão efeitos duradouros se submetidas à disciplina da diplomacia estratégica. A ONU tem ferramentas; falta-lhe hoje algo mais escasso: a convergência de interesses que transforme intenções em resultados. Até que isso ocorra, o sul do Líbano permanecerá um terreno de contestação e risco, com alicerces frágeis para qualquer reconstrução sustentável.