«Liberdade negada»: em Roma, relato e estratégia das mulheres iranianas
Conferência em Roma dá voz às mulheres iranianas: testemunhos, arte e pedido de proteção internacional contra a repressão.
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«Liberdade negada»: em Roma, relato e estratégia das mulheres iranianas
Em um auditório repleto na sede da Associazione della Stampa Estera em Palazzo Grazioli, realizou-se o congresso "Liberdade negada: o coragem das mulheres iranianas", promovido pela Associazione Giornaliste Italiane. O evento, conduzido com a gravidade e a sobriedade que o tema exige, teve por objetivo colocar no centro do debate a voz direta de quem vive a repressão: o próprio povo iraniano.
Como abriu a moderadora Christiana Ruggeri, jornalista do Tg2, "Se volete parlare dell'Iran, fate parlare il popolo iraniano" — premissa que orientou uma tarde de testemunhos, análises acadêmicas e manifestações artísticas. Em pauta, a condição das mulheres iranianas, sua resiliência e a brutalidade sistemática exercida pelo poder.
No palco alternaram-se vozes que traduzem os muitos rostos dessa luta. A fotógrafa e jornalista Zhara Rastekar apresentou um conjunto de imagens que desvelam a ambivalência do cotidiano feminino no Irã: "As minhas fotografias mostram uma dupla identidade: cobertas por cima e ocidentalizadas por baixo", explicou, evidenciando tanto a criatividade quanto os riscos de documentar a realidade sob um regime que controla meios de comunicação e circulação de informação.
A ativista Leila Farahbakhsh trouxe um testemunho direto e comovente sobre as violências infligidas às mulheres: prisões, torturas e a separação de filhos. "São as mulheres iranianas que nos dão coragem", disse, convocando a responsabilidade internacional de amplificar essas denúncias. Complementando, a escritora e ativista Pegah Moshir Pour descreveu o trauma coletivo imposto pelo regime islâmico e clamou por maior apoio externo: "Hoje o horror tem imagens reais".
Em um momento planejado para ampliar o impacto jornalístico, foi exibido um vídeo do escritor e jornalista Reza Rashidy, que denunciou interrupções de Internet, censura e operações em hospitais contra manifestantes feridos. A estratégia de "escurecer o tabuleiro" informacional — cortando comunicações e mídia — foi descrita como parte de uma repressão calculada para evitar que o mundo veja o seu movimento.
Aprofundando o enquadre acadêmico, a professora Alessia Melcangi, da Universidade La Sapienza, ofereceu uma análise sobre a dinâmica do poder no Irã, mapeando os alicerces frágeis da diplomacia regional e as implicações para direitos humanos. A performance da violoncelista Leila Shirvani encerrou com um momento de alta intensidade emocional: sua música foi apresentada como um "hino à liberdade", uma linguagem universal que transcende a repressão.
Em ato simbólico pela defesa da liberdade de imprensa, a Associazione Giornaliste Italiane anunciou a intenção de conceder a Zhara Rastekar a tessera di socia onoraria — um gesto público em favor do direito universal à expressão.
O encontro em Roma não foi apenas uma sucessão de depoimentos; constituiu-se como um movimento estratégico no tabuleiro diplomático: expor mecanismos de opressão, proteger a integridade das testemunhas e buscar convergência de apoio internacional. Em termos de realpolitik, trata-se de pressionar por canais de observação e de responsabilização que possam alterar, mesmo que gradualmente, o equilíbrio de poder interno do Irã.
Como analista, registro que a persistência das mulheres iranianas é um fator de tensão que redesenha fronteiras invisíveis de influência. A chancela simbólica do evento — reunir imprensa, academia e arte — é um movimento calculado: fortalecer narrativas que resistam à tentativa de apagar vozes, e obrigar interlocutores internacionais a considerar consequências políticas e humanitárias.
Marco Severini
Analista sênior, Espresso Italia