Muratov convoca as Igrejas a serem bastiões contra o autoritarismo que instrumentaliza a fé

Muratov pede que as Igrejas resistam ao autoritarismo que usa a fé para justificar guerras e ataque aos direitos humanos.

Muratov convoca as Igrejas a serem bastiões contra o autoritarismo que instrumentaliza a fé

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Muratov convoca as Igrejas a serem bastiões contra o autoritarismo que instrumentaliza a fé

Por Marco Severini — Em um pronunciamento carregado de peso moral e análise estratégica, o jornalista russo Dmitri Muratov, vencedor do Nobel da Paz em 2021, lançou um apelo direto às Igrejas para que se tornem pontos de resistência contra o avanço dos autoritarismos que justificam a guerra em nome de Deus. A mensagem será transmitida em vídeo na conferência internacional "Dire Cristo in tempi di guerra", marcada para os dias 8 a 10 de maio na sede da Fondazione Russia Cristiana, em Seriate (Bergamo).

Apesar das fortes pressões e dos ataques pessoais ao jornal que dirigiu por anos, Novaya Gazeta, Muratov permaneceu em Moscou e manteve a sua voz ativa. Segundo antecipações obtidas pela AGI do seu discurso, o jornalista colocou a defesa da vida humana como princípio inegociável: "A vida é o principal dom de Deus. Não é a administração dos presidentes, não são os algoritmos das redes sociais".

No tom grave de quem avalia movimentos no grande tabuleiro da história, Muratov alertou para um fenômeno preocupante: "Atualmente no mundo estão em curso 72 guerras e há um processo de justificação dos conflitos por meio de Deus". Em sua análise, essa instrumentalização religiosa constitui um princípio central da propaganda dos regimes que buscam consolidar poder.

O jornalista — hoje engajado 24 horas por dia em campanhas de apoio a prisioneiros políticos russos e ucranianos — acusa lideranças autoritárias de apropriamento religioso: "Os ditadores tentam sempre se apropriar de Deus. E na Rússia a Igreja tornou-se parte integrante da propaganda oficial", afirmou, lembrando a bênção do Patriarca de Moscou à invasão da Ucrânia em 2022. "Deste modo, a Igreja corre o risco de ser transformada num lugar de culto da guerra".

Em metáfora que evoca um movimento decisivo no tabuleiro geopolítico, Muratov descreveu a emergência de um conjunto de valores que se assemelham a uma ideologia expansionista: "Os ditadores modernos, se se repara, tentam fazer do fascismo a principal ideologia contemporânea". Observou o aumento do culto à morte, da exaltação da conquista territorial, da adoração ao líder e do rejeitamento dos direitos humanos.

O apelo, claramente dirigido às instituições religiosas, foi formulado assim: "Direi o mais importante — o motivo pelo qual ousei dirigir-me a vocês —: parece-me que a Igreja está se tornando o principal símbolo de resistência ao fascismo e ao totalitarismo". Muratov denunciou ainda a difusão da propaganda do sacrifício pela pátria que, segundo ele, perpassa a sociedade desde as creches.

Com tom de quem decifra arquitetura de poder, afirmou que os regimes autoritários buscam submeter por inteiro o indivíduo ao Estado, negando direitos e a própria misericórdia: "Negar os direitos humanos e a misericórdia é, de fato, negar o cristianismo e Deus". Frente à questão simplista que colocam os tiranos — "morrer pela pátria ou viver pela pátria?" — Muratov contrapõe a tradição cristã e os documentos de direitos humanos: para Deus, a vida humana é o valor supremo; para o ditador, interessa o sacrifício em favor do seu poder.

Em tom conclusivo, evocando os alicerces frágeis da diplomacia e a necessidade de um redesenho das fronteiras morais, Muratov recordou que a Declaração Universal dos Direitos Humanos incorpora preceitos religiosos universais sobre o valor da vida: respeito à vida, dignidade e direitos que devem ser preservados contra qualquer instrumentalização ideológica.

Enquanto o mundo observa movimentos tectônicos de influência e simbologias religiosas instrumentalizadas para fins políticos, o apelo de Dmitri Muratov soa como uma convocação serena porém firme: as Igrejas podem — e devem — operar como bastiões morais em defesa da vida humana e dos direitos fundamentais, resistindo aos avanços do autoritarismo que busca sacralizar a violência.